Desde o início do século 21, a preocupação – e provocação – lançada pela Organização das Nações Unidas (ONU) era sobre a necessidade de uma produção de alimentos em maior escala para garantir a segurança alimentar da população mundial, mas mantendo a sustentabilidade ambiental. O Brasil já é um produtor de alimentos e mantem a sustentabilidade, mas a ação de criminosos mancha a imagem do país no exterior. Para contornar isso, é preciso que haja uma forma de comunicação correta para apontar o caminho que o agro brasileiro vem trilhando.
A resposta para a equação que une a oferta, demanda, qualidade dos alimentos e sustentabilidade ambiental é a tecnologia. A ciência se debruçou sobre esse tema, mas a pandemia da Covid-19 aprofundou e agilizou a busca de respostas para esse tema, trouxe uma outra expectativa quanto a questão de segurança alimentar. As pessoas se deram conta de que é possível ficar sem comprar roupa, TV, carro, mas não sem comida.
Isso colocou o país em uma posição interessante, já que foi um dos únicos países no mundo que aumentaram as exportações durante a pandemia. Até a década de 1970, a agricultura e pecuária brasileira eram costeiras, por causa dos grandes centros consumidores e portos, e não se olhava para o Cerrado. A tecnologia gerada nos órgãos de pesquisa e universidades conseguiu fazer a agricultura chegar ao Cerrado com três pilares: soja, capim braquiária e o zebu.
Desde o plano Collor, em 1990, até hoje, a área plantada de grãos no Brasil cresceu 74%, e a produtividade avançou 342%. Hoje cultivamos 66 milhões de hectares com grãos, somando o que se faz em duas safras. Se fosse a mesma produtividade que tivesse no plano Collor, teria que ter mais 103 milhões de hectares para colher a safra desse ano. Ou seja, preservamos 103 milhões de hectares, e esse processo está feito, consolidado.
Mesmo com o crescimento no agronegócio baseado em tecnologia gerada em instituições de pesquisas e universidades, as ilegalidades cometidas por criminosos, os não-agricultores sérios, acabam manchando a imagem do país. Há importadores que querem suspender as compras por causa destes crimes, como grilagem, garimpo, desmatamento e queimadas ilegais. Precisamos de comunicação correta, reconhecer os erros e corrigi-los para contornar esse desafio.
Como exemplo de expansão das exportações brasileiras, cito a China, que em 2000 representava 2,7% dos US$ 20 bilhões das vendas de produtos do agro do Brasil no mercado externo. Em 2019, as exportações agrícolas brasileiras passaram para a soma de US$ 90 bilhões, e a China representava então 32% do total. As exportações do Brasil cresceram quase cinco vezes, isso tendo pelo caminho crises financeiras. A China hoje é uma potência importante, mas não podemos depender de um só mercado. Temos outros países da Ásia, Oriente Médio, Mercosul, União Europeia. Mas, para ampliar e manter esses mercados implica em grandes negociações diplomáticas. Nós somos um país muito grande para escolher mercado, precisamos vender para o mundo inteiro e, para isso, precisa de uma boa diplomacia.
Roberto Rodrigues é ex-Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil, engenheiro agrônomo, agricultor e coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas.




