Menor produção pressiona preços ao produtor, enquanto custos, importações e consumo limitam avanço do mercado
A restrição na oferta de leite voltou a mexer com o mercado em março e levou a uma alta mais intensa nos preços pagos ao produtor. Após um início de ano de recuperação gradual, o setor registrou em março avanço de 10,5% no valor médio nacional, indicando um ajuste mais forte diante da menor disponibilidade de matéria-prima.
Segundo levantamento do Cepea/Esalq-USP, assinado pela pesquisadora Natália Grigol, a chamada “Média Brasil” atingiu R$ 2,3924 por litro, acumulando o terceiro mês consecutivo de valorização. Apesar do movimento, o patamar ainda permanece 18,7% abaixo do observado em março de 2025, em termos reais, evidenciando que a recuperação ainda não recompõe as perdas recentes.
No acumulado do primeiro trimestre, o avanço foi de 17,6%, com média de R$ 2,2038/litro — ainda 23,6% inferior à do mesmo período do ano passado. O cenário reflete um mercado em transição, com sinais de recuperação nos preços, mas ainda pressionado por custos e limitações estruturais.
A principal explicação para a alta está na queda da captação de leite. O ICAP-L recuou 3,9% entre fevereiro e março e acumula retração de 11,1% no trimestre, resultado da sazonalidade — que reduz a qualidade das pastagens — e da cautela dos produtores, que limitaram investimentos após um ano de margens apertadas.
Ao mesmo tempo, os custos seguem pressionando a atividade. O Custo Operacional Efetivo (COE) subiu 0,46% em março e acumula alta de 2,11% no trimestre, reduzindo o espaço para ganhos mais consistentes ao produtor. A menor oferta também impactou os derivados. O leite UHT registrou valorização de 18,3%, enquanto a muçarela subiu 6,1% no período, refletindo o encarecimento da matéria-prima.
Apesar da tendência de alta, o mercado já começa a dar sinais de acomodação. A partir da segunda quinzena de abril, as negociações perderam ritmo e os preços passaram a ceder, pressionados pela resistência do consumo e pelo aumento das importações, que cresceram 33% em março. No acumulado do trimestre, o volume importado chegou a 604 milhões de litros em equivalente leite, praticamente estável em relação ao ano anterior, mas suficiente para influenciar a dinâmica de preços.
A expectativa é de que o movimento de valorização continue no curto prazo, mas com menor intensidade a partir de maio, diante da combinação de consumo enfraquecido, maior oferta potencial e cautela da indústria em repassar novos aumentos. O cenário reforça um ponto central para o setor: mesmo com a recuperação dos preços, a sustentabilidade da atividade segue condicionada ao equilíbrio entre custos, oferta e demanda.




