Pesquisa da Embrapa e universidade dos Estados Unidos identifica microrganismos capazes de elevar a tolerância do milho em áreas afetadas pela salinização
Uma descoberta envolvendo microrganismos considerados raros pela ciência pode abrir uma nova fronteira para a agricultura em regiões afetadas pela salinização do solo. Em meio ao avanço das mudanças climáticas, da escassez hídrica e da degradação agrícola em áreas irrigadas, pesquisadores brasileiros identificaram organismos capazes de ajudar o milho a sobreviver e crescer sob condições extremas de excesso de sal.
O estudo foi conduzido pela Embrapa Meio Ambiente em parceria com a Brandeis University, nos Estados Unidos, e revelou que arqueias extremófilas — grupo de microrganismos adaptados a ambientes severos — conseguem aumentar a tolerância fisiológica do milho em solos salinizados.

Os microrganismos foram isolados das raízes da erva-sal (Atriplex nummularia), planta naturalmente adaptada a ambientes com alta concentração de sais e utilizada na recuperação de áreas degradadas. Nos experimentos conduzidos em ambiente controlado, os pesquisadores observaram que o milho tratado com arqueias apresentou crescimento mais vigoroso, maior biomassa e preservação dos níveis de clorofila mesmo sob altas concentrações de sal no solo.
Além disso, análises moleculares confirmaram que as arqueias colonizaram com sucesso a rizosfera — região próxima às raízes onde ocorrem intensas interações químicas e biológicas. O sequenciamento genético identificou genes ligados à produção de fitormônios e osmoprotetores, substâncias que ajudam as plantas a enfrentar o estresse osmótico provocado pela salinidade.
Segundo Itamar Melo, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e coordenador do estudo, a tecnologia pode representar uma alternativa importante para áreas atualmente consideradas improdutivas. “O problema não se restringe ao Semiárido, onde cerca de 30% das áreas irrigadas são atingidas pela salinização. Está presente em várias regiões do Brasil e do mundo”, afirma Melo.
Segundo ele, a aplicação de microrganismos adaptados à salinidade surge como estratégia promissora dentro do avanço dos bioinsumos agrícolas. “Nesse contexto, inoculantes microbianos à base de arqueias surgem como inovação promissora no campo dos bioinsumos e podem abrir uma nova frente para a agricultura em áreas degradadas.”
O pesquisador João Paulo Ventura, que liderou os experimentos da pesquisa, destaca que o estudo muda a forma como a ciência enxerga esses organismos. “De curiosidades da microbiologia associadas a ambientes extremos, as arqueias passam a ser vistas como ferramentas biotecnológicas concretas, com potencial para sustentar a produtividade agrícola e contribuir para a segurança alimentar em áreas afetadas pela salinização e pelas mudanças climáticas”, acrescenta Ventura.
O avanço da pesquisa ocorre em um contexto preocupante para a agricultura mundial. Dados citados pela Embrapa indicam que o Brasil possui cerca de 16 milhões de hectares afetados por sais, com forte concentração no Semiárido nordestino. Em escala global, estimativas da FAO apontam que até 1,38 bilhão de hectares apresentam algum grau de salinidade. Os pesquisadores avaliam que, no futuro, bioinoculantes à base de arqueias poderão ser aplicados diretamente em sementes ou no solo antes do plantio, ajudando culturas como milho, feijão e hortaliças a manter produtividade mesmo em áreas irrigadas com água salobra.




