As vendas de suplementos minerais para pecuária registraram crescimento de 4% no primeiro quadrimestre de 2026. As indústrias associadas à ASBRAM comercializaram 764,8 mil toneladas entre janeiro e abril, em comparação ao mesmo período do ano anterior. O desempenho foi impulsionado especialmente pelos resultados de abril, quando as vendas alcançaram 210,4 mil toneladas, alta de 4,9%. Os números foram apresentados durante o Painel de Mercado da Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais – ASBRAM, realizado na semana passada, em São Paulo.
Segundo o cientista econômico Felippe Cauê Serigati, pesquisador da FGV Agro e responsável pelo painel da Associação, a evolução no número de animais suplementados foi ainda mais expressiva, atingindo crescimento de 8%, totalizando 68 milhões de cabeças. O avanço foi puxado principalmente pelas modalidades Núcleos e Pronto
para Uso. “A tendência é que os bons resultados continuem durante o período seco de outono-inverno, impulsionados pela necessidade de suplementação nutricional, pela valorização da cria e pelo bom momento da pecuária brasileira. Apesar dos desafios internos e externos, a economia brasileira deve seguir crescendo e a carne bovina continuará forte em produção, exportações, abates e consumo interno”, afirmou.
Durante o encontro, Marcos Fava Neves, professor da Universidade de São Paulo e executivo da Markestrat e da Harven Agribusiness School, destacou o processo de transformação da economia brasileira impulsionado pelas cadeias de proteína animal e bioenergia. “Estamos assistindo a uma verdadeira ‘carnificação’ da economia brasileira, fortalecendo o interior do país e integrando cadeias produtivas como DDG, farelo de soja, biogás, biometano e biodiesel. O agro brasileiro está construindo um modelo cada vez mais eficiente e sustentável”, afirmou.
O especialista ressaltou ainda o excelente momento vivido pela pecuária bovina brasileira, especialmente nas exportações. “Os Estados Unidos estão comprando muito e a China segue demandando carne brasileira, inclusive por caminhos alternativos. Hoje, exportamos cerca de 4 milhões de toneladas por ano e podemos chegar a 5 milhões até 2035. A pecuária ainda contribui para abrir novas áreas para agricultura intensiva, com duas safras e forte incorporação tecnológica”, acrescentou.
No cenário econômico, o debate promovido pela ASBRAM apontou que, apesar da inflação elevada, dos juros altos e do aumento nos preços dos alimentos, o Brasil ainda apresenta sinais positivos de crescimento em 2026. De acordo com Serigati, o país deverá crescer cerca de 1,9% neste ano, sustentado pelo aumento do consumo das famílias, da renda, das exportações — especialmente do agronegócio — e também das importações. “O Brasil possui petróleo para exportar e está menos vulnerável do que outras economias globais. Porém, o crescimento atual ocorre sem sustentação fiscal, os juros devem cair lentamente e o endividamento das famílias continua elevado”, ponderou.
O cenário internacional também esteve em pauta. A escalada das tensões envolvendo Estados Unidos e Irã vem pressionando os preços globais de combustíveis e insumos, principalmente após ameaças de fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio internacional de petróleo. Ainda assim, os especialistas avaliaram que o Brasil permanece relativamente favorecido entre as economias emergentes exportadoras de energia e alimentos.
Para Marcos Fava, o agro brasileiro seguirá em posição estratégica nas próximas décadas. “O mundo está turbulento, mas continuará precisando de alimentos. O Brasil é a cozinha do planeta e terá papel fundamental no abastecimento global diante da urbanização, do aumento da renda e do crescimento do consumo de proteína animal”, destacou. Ele alertou, no entanto, para a necessidade de planejamento e gestão estratégica dentro das propriedades rurais. “Questões como clima, guerras, custos de produção, sanidade, mão de obra e endividamento precisam estar permanentemente no radar do produtor.”
O professor também reforçou a importância da diversificação de fornecedores, da redução da dependência de fertilizantes e da adoção de tecnologias voltadas à eficiência produtiva e sustentabilidade. “O futuro é extremamente promissor para soja, milho, etanol de milho e cana, biodiesel e biogás. Mas é preciso cautela. Preços muito altos nem sempre são sustentáveis. O produtor precisa focar em rentabilidade, inovação, liderança e sustentabilidade lucrativa”, afirmou.
Além dos debates econômicos e de mercado, a reunião da ASBRAM abordou temas regulatórios relevantes para o setor, como a logística reversa. A entidade destacou a preocupação com autuações realizadas por alguns estados brasileiros, apesar da inexistência, até o momento, de obrigatoriedade formal para implantação do sistema no segmento de suplementos minerais. Estados como Goiás, Mato Grosso e São Paulo vêm aplicando multas a algumas empresas do setor. A recomendação apresentada foi para que as empresas recorram administrativamente dessas penalidades, uma vez que o tema ainda está em discussão regulatória e deverá futuramente envolver também o segmento de fertilizantes, responsável por aproximadamente 50 milhões de toneladas comercializadas por ano.
Outro destaque do encontro foi a apresentação sobre os novos desafios da nutrição animal, conduzida por Everton Nicolau, diretor de Vendas, Marketing, Pesquisa e Desenvolvimento da Oceana. A empresa atua há mais de vinte anos com jazidas de algas marinhas localizadas a cerca de 50 quilômetros da costa brasileira, desenvolvendo soluções voltadas à inovação nutricional animal.
Por fim, a ASBRAM anunciou oficialmente o lançamento do livro comemorativo de seus 30 anos, que será apresentado durante o Simpósio da entidade, em 2027. A publicação terá mil exemplares em capa dura e contará a trajetória da Associação e das cerca de cem empresas associadas, destacando três décadas de contribuição para o fortalecimento da nutrição do rebanho bovino brasileiro. O material será distribuído a entidades, lideranças, parceiros institucionais e representantes do setor.
“Vamos registrar nossa história, nossas ações, eventos, campanhas, debates e o trabalho técnico desenvolvido ao longo dessas três décadas. 2026 é um ano desafiador, mas acreditamos que, nos próximos dez anos, a pecuária será o maior setor do agronegócio brasileiro. E a ASBRAM continuará atuando de forma estratégica e persistente ao lado do setor”, concluiu Elizabeth Chagas, Vice-Presidente Executiva da Associação.




