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Brasil deve se reinventar para seguir líder na soja

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Marcelo Morandi, chefe da ARI da Embrapa: capacidade de produzir além do que consome. Fotos: Arthur Santiago

Seminário da Embrapa Soja reúne especialistas que defendem uma nova estratégia para manter a competitividade brasileira no mercado global

 

A liderança conquistada pelo Brasil no mercado mundial da soja já não depende apenas da capacidade de produzir grandes volumes. Especialistas reunidos no VIII Seminário Desafios da Liderança Brasileira no Mercado Mundial de Soja defenderam que a competitividade do país nos próximos anos estará diretamente ligada à diversificação de mercados, à agregação de valor às exportações, à inovação tecnológica e à superação de gargalos históricos em logística e infraestrutura.

Realizado na Embrapa Soja, em Londrina (PR), o seminário reuniu pesquisadores, representantes do setor produtivo, especialistas em comércio internacional e autoridades para discutir como o agronegócio brasileiro poderá responder às transformações da economia global, às mudanças climáticas e às novas exigências dos mercados consumidores.

Na abertura do encontro, o chefe da Assessoria de Relações Internacionais (ARI) da Embrapa, Marcelo Morandi, destacou que o Brasil reúne condições únicas para ampliar sua participação no comércio mundial de alimentos. “O Brasil tem muitas oportunidades diante do cenário mundial, porque temos terra disponível, água abundante, clima favorável e domínio da tecnologia tropical. O Brasil talvez seja o único país que tem essa capacidade de produzir muito além do que consome”, afirmou. Ao mesmo tempo, alertou que a estratégia chinesa de reduzir gradualmente sua dependência das importações de soja reforça a necessidade de o país diversificar mercados e agregar valor à produção agrícola.

A relação entre Brasil e China também esteve no centro das discussões. O ministro Zou Chuanming, da Embaixada da República Popular da China, ressaltou que a parceria agrícola continuará estratégica para os dois países. “A cooperação agrícola sino-brasileira traz benefícios concretos para os dois povos”, afirmou. Segundo ele, além do comércio de grãos, existe espaço para ampliar a cooperação em armazenagem, logística, processamento de maior valor agregado, agricultura digital, biocombustíveis, melhoramento genético e pesquisa aplicada.

Na avaliação de Túlio Cariello, diretor de Conteúdo e Pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o Brasil precisa aproveitar sua posição privilegiada para avançar além da exportação de commodities. Para ele, o caminho passa por “agregar valor às exportações, diversificar mercados de exportação, investir em inovação e eficiência produtiva”, além de aumentar a produtividade sem expandir a fronteira agrícola e fortalecer a rastreabilidade e a sustentabilidade da produção.

Outro eixo importante do seminário tratou dos impactos das mudanças climáticas sobre a produção de soja. O professor Marcos Silveira Buckeridge, do Instituto de Biociências da USP, explicou que o aumento da concentração de dióxido de carbono pode favorecer a produtividade em determinados cenários, mas também provocar alterações importantes na qualidade nutricional dos grãos. Segundo ele, essas mudanças poderão afetar cadeias como as de óleos vegetais e biodiesel, exigindo novos investimentos em pesquisa, melhoramento genético e políticas públicas voltadas à adaptação da agricultura.

Os debates também evidenciaram que a infraestrutura logística continua sendo um dos principais desafios da competitividade brasileira. O professor Thiago Péra, da Esalq/USP, lembrou que o crescimento da produção agrícola aumenta a demanda por transporte e armazenagem, enquanto o País ainda depende majoritariamente do transporte rodoviário. Embora os corredores do Arco Norte tenham ampliado sua participação nas exportações de grãos, especialistas defenderam novos investimentos em ferrovias, armazenagem e sistemas logísticos para reduzir custos e aumentar a eficiência do escoamento da safra.

O seminário também apresentou avanços na automação da classificação da soja. O chefe da Divisão de Metrologia em Tecnologia da Informação e Comunicações do Inmetro, Raphael Machado, explicou que a instituição desenvolve um sistema digital para padronizar a classificação dos grãos. “A introdução de mecanismos digitais não pretende competir com os classificadores humanos, mas sim fortalecer e consolidar o conceito da classificação de grãos com maior sistemática e rigor”, afirmou. A proposta deverá servir como referência técnica para o mercado a partir deste ano.

Ao final dos dois dias de debates, a principal conclusão foi que manter a liderança brasileira no mercado mundial da soja exigirá uma estratégia integrada. Produzir mais continuará sendo importante, mas a competitividade futura dependerá cada vez mais da capacidade de combinar ciência, inovação, sustentabilidade, infraestrutura, agregação de valor e cooperação internacional para responder às novas demandas do comércio global.

 

 

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