Fim gradual do vazio sanitário abre a safra 2026/27, mas decisões devem começar antes de as máquinas entrarem no campo
A semeadura da soja começa a ganhar espaço no calendário a partir de setembro, mas uma das principais ameaças à cultura exige decisões muito antes de a primeira máquina entrar na lavoura. A ferrugem-asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, coloca planejamento da época de plantio, eliminação de plantas voluntárias, monitoramento regional e definição do programa de fungicidas entre as medidas que precisam estar encaminhadas antes da implantação da safra.
O movimento ganha importância com o encerramento gradual do vazio sanitário. Na safra 2026/27, a semeadura pode começar em 7 de setembro em Mato Grosso, 16 em Mato Grosso do Sul e 25 em Goiás. Minas Gerais e Distrito Federal têm liberação prevista para 1º de outubro.
O vazio sanitário procura interromper a sobrevivência do fungo entre safras, reduzindo o inóculo no ambiente e ajudando a retardar a chegada da doença às lavouras. A estratégia, entretanto, não funciona isoladamente. Eliminar soja voluntária — as chamadas tigueras ou guaxas —, monitorar a cultura desde o início, utilizar cultivares precoces quando indicado e trabalhar preventivamente com fungicidas integram o manejo.
“A liberação do calendário de semeadura não pode ser vista como o marco zero do manejo”, afirma Paulo Moraes Gonçalves, engenheiro agrônomo da Ourofino Agrociência. Segundo ele, o produtor deveria chegar ao plantio com decisões sobre época de semeadura, monitoramento e estratégia de controle já estabelecidas.
A época de implantação da lavoura também influencia sua exposição. À medida que a safra avança, tende a aumentar a quantidade de inóculo disponível. Áreas semeadas no início da janela recomendada podem avançar mais no ciclo antes de a ferrugem estar amplamente disseminada. Plantios posteriores, por sua vez, podem encontrar maior presença de esporos.
Isso não significa buscar simplesmente a data mais precoce. Condições de umidade do solo, ambiente de produção, recomendações agronômicas e o calendário oficial precisam orientar a decisão. “O ponto-chave é aproveitar estrategicamente a janela de semeadura”, diz Gonçalves.
Prevenção ganha peso
O planejamento dos fungicidas segue a mesma lógica. Uma rede formada por 23 instituições realizou 21 experimentos na safra 2025/26 para avaliar a eficácia desses produtos contra a ferrugem. Segundo o material, os resultados reforçam a necessidade de considerar a época de semeadura e fazer rotação de fungicidas com diferentes modos de ação, evitando aplicações sequenciais e estratégias predominantemente curativas.
O acompanhamento das ocorrências regionais também ajuda a ajustar o programa ao longo da safra. O Consórcio Antiferrugem é citado como ferramenta para acompanhar a dispersão da doença pelo País.
“Esperar a visualização dos sintomas para começar a construir a estratégia deixa o produtor em uma posição muito mais reativa”, alerta Gonçalves. Fungicidas continuam sendo ferramenta fundamental, acrescenta, mas devem integrar um manejo iniciado antes do plantio.
Em uma doença capaz de acompanhar a soja de uma safra à outra, portanto, a primeira aplicação não é o começo do controle. A estratégia começa na entressafra e passa por uma sequência de decisões destinadas a fazer com que a lavoura chegue ao período de maior risco já protegida.


