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Nova bactéria amplia pistas sobre o ‘mal do olho’

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Descoberta da Moraxella tarda amplia conhecimento sobre doença ocular e pode contribuir para novas vacinas e diagnósticos

 

Uma doença ocular bastante conhecida nos rebanhos pode ser mais complexa do que se imaginava. Pesquisas brasileiras mostram que diferentes bactérias podem estar envolvidas na ceratoconjuntivite infecciosa bovina (CIB), popularmente chamada de “mal do olho”, condição dolorosa que pode comprometer a visão e o desempenho dos animais. Agora, a identificação de mais uma espécie amplia as possibilidades de investigação sobre prevenção, diagnóstico e controle da enfermidade.

Batizada de Moraxella tarda, a nova bactéria foi descoberta por pesquisadores da Embrapa, em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e o Instituto Biológico de São Paulo. O microrganismo foi isolado da mucosa nasal de bovinos Hereford que apresentavam sinais clínicos iniciais da doença.

A confirmação exigiu análises bioquímicas, fisiológicas e genômicas, além do depósito de amostras em coleções microbiológicas no Brasil, Bélgica e Portugal. O sequenciamento mostrou identidade genômica distinta: a semelhança com outras espécies do gênero ficou entre 77% e 79%, abaixo do limite de 95% utilizado para considerar indivíduos da mesma espécie.

Pesquisadores coletam material de animal com a doença

Historicamente, a Moraxella bovis é apontada como agente clássico da CIB. Outros estudos, porém, vêm revelando um cenário mais diverso. Em um surto ocorrido em novilhas Holandesas em Minas Gerais, que atingiu 72% dos animais jovens do lote, foram encontradas Moraxella bovoculi e, pela primeira vez no Brasil, Moraxella oculi. Nenhuma M. bovis foi identificada nas lesões analisadas.

A descoberta da M. tarda acrescenta mais uma peça a esse quebra-cabeça. Os pesquisadores avaliam se a presença de agentes ainda não considerados nas estratégias de controle pode estar relacionada às diferenças de eficácia observadas no campo.

“As vacinas são feitas a partir dos agentes conhecidos. Se existe um agente desconhecido e não incluído na vacina, o imunizante não protege contra aquele agente”, explica Fernando Cardoso, pesquisador da Embrapa e um dos autores do trabalho.

A identificação pode, portanto, contribuir para o desenvolvimento de vacinas polivalentes mais abrangentes e testes rápidos de diagnóstico, embora novas pesquisas ainda sejam necessárias para compreender o papel efetivo da bactéria na doença.

Placas com Moraxella tarda, coletadas de animais contaminados

Dor, perda de visão e menor ganho de peso

A CIB atinge principalmente bezerros de raças europeias (taurinas). Entre os sinais estão inflamação ocular, dor, lacrimejamento e úlceras de córnea, podendo ocorrer perda parcial ou total da visão. O desconforto também reduz o apetite e pode comprometer o ganho de peso.

Além de investigar os agentes bacterianos, a Embrapa trabalha com seleção genética de bovinos mais resistentes à enfermidade. Estudos indicam que essa resistência possui componente genético e pode ser incorporada aos programas de melhoramento, com informações genômicas aumentando a precisão da seleção.

Uma nova etapa das pesquisas utilizará córneas obtidas em frigoríficos e mantidas em laboratório. A metodologia permite estudar a interação entre bactéria e hospedeiro sem induzir a doença em animais vivos, além de criar uma plataforma para pesquisas de vacinas, medicamentos e resistência genética.

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