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China desacelera demanda por alimentos e acende alerta

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Estudo da Embrapa aponta estabilização do consumo chinês e reforça necessidade de diversificação comercial do Brasil

 

O motor que impulsionou parte da expansão do agronegócio brasileiro nas últimas duas décadas começa a mudar de velocidade. Um estudo conduzido por pesquisadores da Embrapa Territorial e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) aponta que o consumo de alimentos na China entrou em um processo de desaceleração — movimento que pode redefinir estratégias comerciais, logísticas e diplomáticas do agro brasileiro nos próximos anos.

A análise mostra que a demanda chinesa por alimentos continua elevada, mas perde intensidade à medida que o país atinge padrões mais altos de renda e urbanização. O fenômeno é explicado pela chamada Lei de Engel, segundo a qual o crescimento econômico aumenta inicialmente os gastos com alimentação, mas tende a atingir um ponto de saturação ao longo do desenvolvimento.

“O movimento em curso na China é muito semelhante ao que foi observado em outros países. As pessoas vão aumentando e diversificando o consumo de alimentos, mas há um ponto de saturação, um ponto a partir do qual as pessoas não conseguem comer mais e querem outras coisas”, afirma Marcelo Pinho, professor da UFSCar e um dos autores do estudo.

Os números mostram a dimensão dessa transformação. O consumo per capita de frutas na China saiu de 4,3 kg anuais na década de 1960 para 108,7 kg em 2022 — volume superior ao registrado no Brasil. O consumo de carnes também avançou fortemente, saltando de 9,9 kg para 107 kg anuais por pessoa, patamar acima do europeu.

Agora, porém, o ritmo de crescimento desacelera. O consumo de leite, por exemplo, que crescia acima de 10% ao ano nos anos 2000, passou para apenas 0,6% anuais entre os períodos de 2010/2012 e 2020/2022.

Apesar disso, o estudo ressalta que a desaceleração não significa retração imediata das exportações brasileiras. Segundo os pesquisadores, o avanço recente das vendas do Brasil ocorreu porque a China ampliou a importação de insumos estratégicos, especialmente soja para alimentação animal e celulose.

A lógica chinesa, no entanto, mudou. O país asiático busca reduzir a dependência externa de alimentos destinados ao consumo humano direto, preservando sua segurança alimentar, mas continua admitindo importações de matérias-primas industriais e insumos agrícolas.

“Quando as importações de carne bovina estavam chegando a um quarto do consumo, foram impostas restrições. Então, quando se trata de alimento de uso final, o que a história recente mostra é que eles não estão dispostos a uma exposição muito grande ao risco de depender de importações”, afirma Pinho.

O cenário acende um alerta estratégico para o Brasil. “Eles são muito agressivos comercialmente e não podemos subestimar sua capacidade de adaptação e inovação”, afirma Daniela Souza, analista da Embrapa Territorial e autora do estudo.
Além da dependência comercial, o estudo chama atenção para outro fator crítico: a dependência brasileira de fertilizantes chineses. “Somos simultaneamente dependentes dela para vender e para produzir. Isso exige uma releitura estratégica dessa relação comercial”, afirma Gustavo Spadotti, chefe-geral da Embrapa Territorial.

Para os pesquisadores, o próximo ciclo do agro brasileiro dependerá menos da expansão automática da demanda chinesa e mais da capacidade de diversificar mercados, fortalecer acordos diplomáticos e reduzir vulnerabilidades geopolíticas.

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