Primeiro Texto Ocasional para Discussão examina dados globais e brasileiros e questiona a centralidade da agropecuária no debate climático.
O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Esalq/USP, iniciou 2026 com o lançamento de uma nova linha de publicações analíticas: os Textos Ocasionais para Discussão (TOD). A proposta é divulgar estudos pontuais que abordem temas atuais, emergentes ou controversos, sustentados por evidências empíricas robustas e análise econômica aplicada.
O primeiro trabalho da série (TOD nº 1), assinado pelo coordenador científico do Cepea, Geraldo Barros, coloca no centro do debate as mudanças climáticas e suas relações de causa e efeito com a agropecuária e outros setores da economia. O texto parte do consenso científico sobre a gravidade do aquecimento global, destacando que, desde 1960, as emissões globais de gases de efeito estufa se multiplicaram por sete.
O estudo também chama atenção para o avanço dos desastres climáticos. Desde 1990, a frequência desses eventos tem crescido de forma preocupante em paralelo à elevação da temperatura média global. No Brasil, o número de registros saltou de 403, em 1990, para 4.818 em 2023, evidenciando o aumento da vulnerabilidade ambiental e socioeconômica.
Ao tratar das responsabilidades setoriais, o texto relativiza a recorrente associação da agropecuária como principal vilã climática. Globalmente, o setor energético responde por cerca de 75% das emissões e cresce a uma taxa anual de 1,8%, enquanto a agricultura representa 12% do total, com avanço bem mais moderado, de 0,5% ao ano. No Brasil, embora a agropecuária ainda responda por 38% das emissões líquidas, o estudo aponta clara desaceleração e queda de 21% nas emissões totais do País nas últimas três décadas, sobretudo pela redução do desmatamento.
O trabalho também destaca entraves estruturais à agenda ambiental, como a falta de registro e georreferenciamento de 17% do território brasileiro, concentrada nas regiões Norte e Nordeste, o que dificulta o combate ao desmatamento. Por fim, o texto aborda o potencial — ainda incerto — de inserção de terras indígenas no mercado voluntário de carbono, tema que depende de avanços em governança, segurança jurídica e definição de critérios para garantir benefícios efetivos aos povos originários.


