Entidades do setor estimam perdas milionárias e temem impacto em toda a cadeia aquícola brasileira após votação da Conabio
A poucos dias de uma decisão considerada estratégica para a aquicultura brasileira, a cadeia da tilápia intensificou a mobilização contra a possibilidade de a espécie ser enquadrada como invasora pela Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio). O temor do setor vai além do debate ambiental e alcança um dos pontos mais sensíveis da produção nacional: a competitividade internacional da piscicultura brasileira.
Marcada para 27 de maio, a votação reacendeu preocupações sobre os reflexos regulatórios, comerciais e econômicos que podem atingir um dos segmentos mais relevantes da proteína animal no país. Atualmente, a tilápia responde por quase 70% da piscicultura brasileira e sustenta uma cadeia que envolve produção, frigoríficos, transporte, fábricas de ração, processamento e exportação.
Levantamento técnico elaborado pela Peixe BR projeta que uma eventual classificação da espécie como invasora poderia provocar uma retração de até 90% nas exportações brasileiras de tilápia em apenas seis meses. Segundo a entidade, as perdas diretas poderiam superar US$ 38 milhões.
A principal preocupação está concentrada no mercado norte-americano, destino de aproximadamente 85% das exportações brasileiras da proteína. O setor teme que a decisão seja interpretada internacionalmente como um reconhecimento oficial de risco ambiental pelo próprio governo brasileiro, abrindo espaço para barreiras comerciais, sanitárias e ambientais.
“Em 2010, os Estados Unidos classificaram a carpa asiática como espécie invasora. Como consequência, as exportações chinesas da espécie registraram queda de aproximadamente 97% em apenas um ano, sem recuperação posterior do mercado”, afirma Francisco Medeiros, presidente da Peixe BR.
Além do impacto externo, entidades do setor alertam para possíveis restrições em licenciamento ambiental, financiamentos, expansão produtiva e utilização de reservatórios e tanques-rede. A avaliação é de que o efeito poderia atingir desde pequenos produtores até grandes operações industriais.
“A classificação pode trazer severos danos para um setor que movimenta mais de R$ 6 bilhões por ano e que cresceu acima de 130% na última década”, afirma Marilsa Patricio Fernandes, secretária executiva da Associação de Piscicultores em Águas Paulistas e da União (Peixe SP).
Segundo Marilsa, o impacto social também preocupa. “Mais de 110 mil propriedades rurais em nosso país cultivam a tilápia e tiram seu sustento dessa atividade legítima e muito bem organizada”, reforça. Outro temor envolve possíveis dificuldades para manutenção de certificações internacionais como BAP, ASC e Global G.A.P., consideradas estratégicas para acesso a mercados premium.
Mais do que uma discussão técnica, a votação da Conabio passou a simbolizar uma disputa sobre o futuro da aquicultura brasileira. Em um momento em que o país tenta ampliar espaço global na produção sustentável de proteína, o setor teme que uma mudança regulatória interna possa comprometer investimentos, competitividade e a expansão internacional construída ao longo das últimas décadas.




