Economista avalia que nova estratégia americana amplia a pressão sobre o Brasil e torna o contencioso mais técnico e duradouro
A sobretaxa de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras representa mais do que uma alteração tarifária. Na avaliação do economista-chefe da Blue3 Investimentos, Roberto Simioni, a medida inaugura uma nova fase da política comercial americana, na qual as disputas deixam de depender de decretos emergenciais e passam a ser sustentadas por instrumentos jurídicos considerados mais robustos, ampliando a duração e a complexidade dos conflitos comerciais envolvendo o Brasil.
Segundo a análise, o governo norte-americano abandonou a estratégia baseada em poderes excepcionais do Executivo e migrou para mecanismos previstos no Trade Act de 1974, especialmente as Seções 301 e 302, que exigem investigações técnicas, consultas e fundamentação administrativa antes da adoção de medidas comerciais. Na prática, isso reduz a vulnerabilidade das tarifas a questionamentos imediatos e desloca a disputa para o campo regulatório e jurídico, tornando sua reversão mais difícil.
O estudo argumenta que o uso desses dispositivos extrapola a proteção da indústria americana e passa a incorporar objetivos geopolíticos. Além de temas ligados ao comércio, as investigações passaram a envolver questões como política ambiental, propriedade intelectual, governança de dados, subsídios setoriais e até decisões regulatórias internas do Brasil. Para Simioni, a mudança representa uma evolução da política tarifária norte-americana para um modelo de coerção mais sofisticado e de longo alcance.
Os impactos, porém, não deverão ser uniformes entre os diferentes segmentos da economia. Conforme o economista, setores industriais de maior intensidade tecnológica tendem a enfrentar maior dificuldade para repassar o custo adicional ao mercado americano, o que pode comprimir margens de lucro, reduzir investimentos e afetar a competitividade. Já no agronegócio e nas commodities, o comportamento tende a ser diferente, pois diversos produtos apresentam baixa substituibilidade e continuam sendo importantes para o abastecimento dos Estados Unidos.
Roberto Simioni, avalia que “no agronegócio e nas commodities extrativas (petróleo, minério de ferro, celulose, café, suco de laranja, proteína bovina), a dinâmica é diferente. A substituibilidade no curto prazo é limitada e a oferta é relativamente rígida.” Segundo ele, essa característica aumenta a possibilidade de concessão de isenções para produtos considerados estratégicos e estimula o redirecionamento das exportações brasileiras para mercados alternativos, especialmente na Ásia e no Oriente Médio, embora esse processo envolva custos logísticos e comerciais adicionais.
A análise também destaca que o ambiente de negócios continuará marcado por elevada incerteza. Dependendo da resposta adotada pelo governo brasileiro, podem surgir efeitos distintos sobre inflação, investimentos e competitividade. Além das tarifas, Simioni alerta que temas como soberania digital, normas socioambientais, propriedade intelectual e até instrumentos não tarifários tendem a ganhar peso nas negociações futuras, exigindo novas estratégias tanto do setor público quanto das empresas exportadoras. Para o economista, o mercado deverá revisar suas projeções para balança comercial, câmbio, consumo e crescimento diante de um cenário em que as disputas comerciais passam a combinar interesses econômicos, regulatórios e geopolíticos.




