Novo revestimento desenvolvido por cientistas brasileiros promete menor desperdício, mais produtividade e menos emissões
A busca por fertilizantes mais eficientes ganhou um novo capítulo no Brasil com o avanço de uma tecnologia que combina nanotecnologia, polímeros biodegradáveis e biomateriais de origem renovável. Pesquisadores da Embrapa Instrumentação, da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um revestimento capaz de controlar a liberação de nitrogênio da ureia — fertilizante mais utilizado na agricultura mundial.
A inovação utiliza um polímero derivado de óleo de mamona combinado à nanoargila mineral montmorilonita para criar uma camada inteligente ao redor dos grânulos de ureia. O objetivo é enfrentar um dos principais gargalos agronômicos do nitrogênio: sua rápida solubilização no solo, que gera desperdício, perdas ambientais e baixa eficiência de aproveitamento pelas plantas.
Os resultados obtidos em experimentos com capim-piatã indicam avanço expressivo na retenção e no aproveitamento do nutriente. Enquanto a ureia convencional liberou mais de 85% do nitrogênio em apenas quatro horas nos testes em água, a formulação com nanoargila reduziu drasticamente essa velocidade.

“Quando a ureia foi revestida apenas com poliuretano, polímero derivado de óleo de mamona, essa liberação foi retardada, mas atingiu cerca de 70% em nove dias. Já a incorporação de apenas 5% da nanoargila mineral montmorilonita à matriz polimérica reduziu drasticamente essa taxa: apenas 22% do nitrogênio foi liberado no mesmo período, evidenciando o papel da nanoestrutura do revestimento no controle da liberação do nutriente”, afirma Ricardo Bortoletto-Santos, professor da Unaerp e pesquisador supervisionado em pós-doutorado pelo Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio (LNNA).
Segundo os cientistas, o efeito ocorre porque a nanoargila atua como uma barreira química e física simultaneamente, controlando a passagem da água e interagindo diretamente com o nitrogênio.
“Além de dificultar fisicamente a passagem da água, ela interage quimicamente com o nitrogênio liberado. Assim, retém o nutriente por mais tempo e o libera de forma gradual, mais próxima do ritmo de absorção da planta”, afirma Caue Ribeiro, pesquisador da Embrapa Instrumentação e coordenador do LNNA.
Os impactos vão além da produtividade. A alta solubilidade da ureia tradicional favorece emissões de amônia e óxido nitroso — um dos gases de efeito estufa mais potentes da agricultura.
“Em condições normais, o fertilizante se dissolve rapidamente, resultando em perdas ambientais significativas, como a volatilização de amônia e a emissão de óxido nitroso”, afirma Ribeiro. Nos testes em casa de vegetação, a tecnologia dobrou a taxa de absorção de nitrogênio em relação à ureia convencional e aumentou a produção de biomassa ao longo de 135 dias.
Para os pesquisadores, o avanço tem relevância estratégica para o país. “Esse estudo representa muito mais do que apenas uma questão acadêmica, mas também se insere na estratégia de Estado para reduzir a vulnerabilidade externa e aumentar a sustentabilidade da agricultura brasileira”, afirma Alberto Carlos de Campos Bernardi, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste.
Atualmente, o Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes que consome. Em um cenário global marcado por tensão geopolítica e pressão sobre custos, tecnologias capazes de aumentar eficiência e reduzir desperdícios tendem a ganhar protagonismo dentro do Plano Nacional de Fertilizantes e da agricultura de baixo carbono.




