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Madeira perde receita e busca novos mercados

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Vendas dos principais produtos recuam em 2026 e elevada dependência dos EUA amplia exposição do setor ao protecionismo

 

A forte exposição de parte da indústria brasileira de madeira ao mercado dos Estados Unidos ganha peso em um momento de avanço das barreiras comerciais e maior instabilidade no comércio internacional. Com segmentos que chegam a destinar mais de 90% das exportações ao mercado norte-americano, o setor enfrenta agora o desafio de encontrar novos compradores sem perder competitividade — uma mudança que envolve muito mais do que simplesmente redirecionar os embarques.

Os números dos primeiros sete meses de 2026 ajudam a dimensionar esse cenário. Entre janeiro e julho, as vendas externas dos oito principais produtos de madeira considerados no levantamento alcançaram US$ 1,467 bilhão, cerca de US$ 275 milhões abaixo do resultado obtido no mesmo período de 2025. MDF, celulose e papel não fazem parte da conta.

Os resultados também mostram que não existe um comportamento único para toda a cadeia. O serrado de pinus chegou a 1,8 milhão de metros cúbicos exportados e cresceu 3% em volume. Na direção oposta, o compensado de pinus recuou 17% em volume e 18% em valor, enquanto as exportações de molduras caíram mais de 50%.

A diferença entre os desempenhos ocorre em um ambiente internacional que passou a exigir das empresas uma leitura mais ampla do comércio exterior. Tarifas, políticas industriais, acordos comerciais, requisitos ambientais e disputas geopolíticas estão interferindo nas decisões sobre onde vender e até sobre o que produzir para cada mercado.

Esse cenário foi analisado no episódio 29 do Podcast WoodFlow, apresentado por Gustavo Milazzo, CEO da WoodFlow, com participação de Marcelo Wiecheteck, Head de Desenvolvimento Estratégico da STCP, e João Alfredo Nyegray, professor, pesquisador e consultor nas áreas de negócios internacionais, geopolítica e estratégia global.

Dependência amplia exposição

A vulnerabilidade fica mais evidente em produtos nos quais os Estados Unidos concentram parcela muito elevada das vendas brasileiras. O país recebe 94% das molduras de pinus exportadas pelo Brasil e 84% das portas de madeira.

Essa concentração não surgiu por acaso. Ao longo dos anos, empresas brasileiras estruturaram produtos, processos e especificações para atender às características daquele mercado.

“O mercado dos Estados Unidos é o maior consumidor e comprador. Não à toa, a indústria brasileira se especializou em atendê-lo. Agora, será preciso mudar totalmente a chave”, afirmou Milazzo.

A mudança mencionada pelo executivo ajuda a entender por que diversificação não é sinônimo de simplesmente encontrar outro país interessado em madeira brasileira. Compensados, molduras e serrados podem ter especificações diferentes conforme o destino. Entrar em novos mercados pode exigir mudanças nas linhas industriais, aquisição de equipamentos e desenvolvimento de produtos com maior valor agregado.

Para Nyegray, as tarifas não devem ser interpretadas apenas como medidas circunstanciais de um determinado governo. O movimento estaria inserido em uma transformação mais ampla da política econômica internacional, com retomada de políticas industriais e busca das grandes economias por menor dependência externa.

“Tarifas vieram para ficar e movimentos protecionistas vieram para ficar, sejam tarifários ou não”, afirmou. Na avaliação do especialista, empresas que elaboram estratégias para os próximos cinco ou dez anos precisarão incorporar as variáveis geopolíticas ao planejamento.

A consequência para o setor florestal é que a diversificação deixa de ser apenas uma oportunidade comercial e passa a funcionar também como instrumento para reduzir a exposição a mudanças regulatórias, tarifárias e políticas em mercados individuais.

Europa exige adaptação

A Europa aparece como uma das alternativas discutidas pelo setor. Segundo as informações apresentadas no podcast, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia está sendo aplicado provisoriamente desde 1º de maio de 2026. A redução gradual das tarifas pode abrir oportunidades, mas não elimina as exigências ambientais, regulatórias e de rastreabilidade.

Entre elas está a EUDR, regulamentação europeia relacionada a produtos livres de desmatamento. De acordo com o material, sua aplicação para grandes e médios operadores está prevista para 30 de dezembro de 2026.

Para a indústria brasileira de madeira, algumas dessas exigências também podem representar oportunidade de diferenciação. Empresas que trabalham com florestas plantadas, certificações e rastreabilidade podem utilizar o atendimento aos requisitos como argumento competitivo, desde que consigam organizar e demonstrar as informações necessárias em cada operação.

Isso não significa, entretanto, ausência de barreiras. Em abril, segundo os dados apresentados, a Comissão Europeia estabeleceu tarifa antidumping de 5,4% sobre o compensado brasileiro de coníferas, com exceção de uma empresa. A medida permanece mesmo quando houver redução da tarifa comercial regular.

Outra alternativa analisada é Singapura. O acordo Mercosul-Singapura entrou em vigor para o Brasil em 1º de agosto, segundo o material, e pode ter importância além do tamanho do próprio mercado singapuriano. A avaliação é que o país pode funcionar como plataforma de entrada para produtos de maior valor agregado em outros mercados asiáticos, ajudando a indústria brasileira a compreender canais comerciais e demandas da região.

“Singapura pode ser vista como um hub para entender e se projetar nos mercados asiáticos”, explicou Nyegray.

Custo Brasil continua no caminho

A abertura de mercados, entretanto, resolve apenas uma parte da equação. Os participantes apontaram logística ineficiente, fretes internos elevados, burocracia aduaneira, juros e infraestrutura entre os fatores que ainda reduzem a competitividade da indústria brasileira.

A situação evidencia um contraste já conhecido do setor. O Brasil possui vantagens competitivas na produção florestal, mas enfrenta custos adicionais entre a origem da madeira e o embarque do produto transformado.

“A competitividade brasileira no campo e nas florestas plantadas é um diferencial fundamental. Da porteira para fora, entretanto, encontramos outra realidade, marcada por logística, acesso e custos”, resumiu Wiecheteck.

A perda de US$ 275 milhões nas receitas dos primeiros sete meses de 2026, portanto, ocorre em um momento no qual a indústria precisa lidar simultaneamente com mercados tradicionais mais protegidos, necessidade de desenvolver novos compradores, adaptação de produtos e custos domésticos de produção e exportação. Mais do que substituir um destino por outro, diversificar exigirá mudanças comerciais e industriais.

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