Setor orizícola catarinense afirma que compras internas da Conab não aliviam o excesso de estoque e defende incentivos à exportação para reequilibrar preços e evitar descapitalização dos produtores.
A crise que afeta o setor orizícola brasileiro segue sem sinais de estabilização, segundo lideranças industriais de Santa Catarina. Apesar do anúncio da Conab, no fim de outubro, de comprar 137 mil toneladas de arroz para tentar segurar preços e elevar a renda dos produtores, as indústrias avaliam que a medida não altera o quadro estrutural que derrubou os valores do cereal ao longo de 2025.
O presidente do SindArroz-SC, Walmir Rampinelli, afirma que o impacto das ações federais é limitado e não muda a perspectiva negativa para o próximo ano. “Somos responsáveis por 10% do abastecimento nacional e geramos 50 mil empregos, mas não temos expectativas de melhora da crise. Não há muito mais que possamos fazer se não esperar pelo próximo ano”, diz. Segundo ele, muitas indústrias planejam férias coletivas e manutenções internas para reduzir os prejuízos.
O quadro atual reflete uma sequência de quedas nas cotações desde o fim de 2024, quando o ritmo de comercialização começou a perder força. Em fevereiro de 2025, o preço passou a recuar semanalmente, aproximando-se de R$ 70 a saca, abaixo do custo de produção estimado em R$ 75. Hoje, o produto é negociado a cerca de R$ 55 em Santa Catarina, patamar considerado insustentável e reproduzido em outros estados produtores.
O vice-presidente do SindArroz-SC, Diogénes Mendes, reconhece que a compra da Conab pode conter a desvalorização no curto prazo, mas alerta que manter o estoque interno elevado prolonga a crise. “A ação é válida como medida emergencial, mas não resolve o problema estrutural do setor. A Conab deveria concentrar esforços em mecanismos de incentivo ao comércio exterior”, afirma.
Para o setor, programas como PEP e Pepro são alternativas mais eficientes, por garantirem preço mínimo e favorecerem o escoamento das sobras. O presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (OCESC), Vanir Zanatta, reforça que a aquisição anunciada é insuficiente diante da alta oferta no Mercosul. “O mercado sabe que comprar 100 ou 200 mil toneladas de arroz não muda o estoque de passagem. O Governo deveria concentrar esforços em operações voltadas ao escoamento acima de um milhão de toneladas”, destaca.
A avaliação é compartilhada pelo SindArroz-SC, que vê risco crescente de descapitalização dos produtores. “O custo de produção de arroz no Brasil é um dos mais altos do mundo. É necessário investir em mecanismos de escoamento de produto”, conclui Rampinelli.


