Uma empresa do GRUPO PUBLIQUE

Guerras, tarifas e clima desafiam a fruticultura

Compartilhe:

Custos logísticos, barreiras sanitárias e conflitos internacionais ampliam incertezas sobre exportações e consumo de frutas

 

O avanço das tensões geopolíticas internacionais começou a atingir de forma cada vez mais direta um dos segmentos mais estratégicos da agropecuária brasileira: a fruticultura. Conflitos armados, barreiras sanitárias, volatilidade cambial e aumento dos custos logísticos passaram a pressionar exportações, consumo e rentabilidade de importantes cadeias produtivas nacionais, ampliando a sensação de insegurança dentro do setor.

Os efeitos desse cenário foram debatidos durante mais uma edição da série “Debates em Socioeconomia”, promovida pela Embrapa, com foco nos impactos das crises globais sobre frutas como manga, uva e laranja. O encontro reuniu pesquisadores, economistas e representantes do setor produtivo para discutir gargalos estruturais e desafios crescentes da fruticultura brasileira.

Na abertura do evento, Francisco Laranjeira, chefe-geral da Embrapa Mandioca e Fruticultura, destacou o peso econômico e social da atividade, mas alertou para os obstáculos que limitam sua expansão. “Os países importadores terminam usando questões de sanidade vegetal como uma arma geopolítica”, afirma Laranjeira.

Segundo ele, doenças como greening dos citros, cancro da videira e mosca-da-carambola ampliam riscos para produção e exportações brasileiras.
O economista Felipe Serigati, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), avaliou que a guerra envolvendo Irã e Israel agravou um cenário já delicado para o agronegócio nacional. “O agro já vinha enfrentando um cenário de endividamento elevado e a guerra do Irã piora isso”, afirma.

De acordo com Serigati, a alta do petróleo pressiona combustíveis, fertilizantes e custos logísticos, afetando diretamente a competitividade agrícola. Ele também alertou para o possível retorno de medidas protecionistas dos Estados Unidos.“Cedo ou tarde, nós temos esse cenário de que alguma coisa das tarifas ainda vai voltar.”

Na cadeia da uva, produtores do Vale do São Francisco relataram forte preocupação com aumento dos custos operacionais e novas exigências europeias ligadas ao limite de resíduos químicos. “Vários fatores já trazidos anteriormente vão impactar sim o nosso negócio”, afirma Edis Matsumoto, produtor do Vale do São Francisco.

Além dos custos logísticos, o setor enfrenta crescente dependência de variedades privadas e redução das ferramentas fitossanitárias disponíveis. Já na citricultura, o principal temor continua sendo o avanço do greening (HLB), considerado hoje a maior ameaça da atividade.
“Não tem margem de manobra. Se não fizer os tratamentos sanitários adequados, você não tem produção”, afirma Margarete Boteon, pesquisadora do Cepea/Esalq-USP. Segundo ela, o setor entra em 2026 sob forte incerteza, pressionado por estoques elevados, demanda enfraquecida e aumento dos custos.

A manga brasileira também sofreu impactos diretos do chamado tarifaço norte-americano anunciado no ano passado. João Ricardo Ferreira de Lima, pesquisador da Embrapa Semiárido, relata que o temor inicial provocou forte insegurança entre exportadores. “Ninguém estava tentando vender sua fruta, literalmente era: ‘como é que eu faço para me livrar dessa fruta?’”, destaca Lima.

Apesar da tensão inicial, problemas nas safras de concorrentes internacionais acabaram favorecendo temporariamente as exportações brasileiras. O debate reforçou uma percepção cada vez mais presente dentro do agro: em cadeias altamente dependentes de logística, sanidade e exportação, crises internacionais deixaram de ser eventos distantes e passaram a influenciar diretamente custos, competitividade e até o consumo de frutas no mercado interno.

 

Encontre na AgroRevenda