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Embrapa cria modelo para medir carbono em solo tropical

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Ferramenta desenvolvida no Brasil busca aumentar a precisão dos projetos de carbono e ampliar a confiança do mercado

 

A expansão do mercado de carbono agrícola esbarra em um desafio que vai muito além da adoção de boas práticas no campo: comprovar, com precisão e credibilidade, quanto carbono está sendo efetivamente retirado da atmosfera e armazenado no solo. Em um ambiente onde a confiança dos investidores depende da qualidade das medições, ferramentas capazes de reduzir incertezas tornaram-se peças estratégicas para o desenvolvimento da chamada agricultura de carbono.

Foi justamente com esse objetivo que a Embrapa concluiu o desenvolvimento do ProCarbon-Soil (Procs), primeiro modelo criado em uma região tropical para estimar a dinâmica do carbono em sistemas agrícolas. A tecnologia foi desenvolvida para mensurar os efeitos de práticas como plantio direto, rotação de culturas e diferentes formas de manejo do solo sobre o estoque de carbono, buscando aproximar os cálculos das condições reais encontradas na agricultura brasileira.

A principal inovação do sistema está na simplificação do processo de modelagem. Enquanto metodologias tradicionais utilizam diversas variáveis e parâmetros complexos, o Procs trabalha com apenas duas métricas diretamente mensuráveis: o estoque total de carbono e sua decomponibilidade. Segundo os pesquisadores, isso reduz a complexidade das análises e melhora a compatibilidade entre os dados medidos no campo e aqueles utilizados nos cálculos dos projetos de crédito de carbono.

“O que a gente precisa para o mercado de carbono é a dinâmica, a variação do carbono total. Uma segunda métrica é associada à qualidade desse carbono, o quão estável ele está. Outros modelos particionam o carbono em diferentes compartimentos. O nosso avalia a qualidade geral do carbono”, explica Luis Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e líder do projeto.

Para desenvolver a ferramenta, os pesquisadores utilizaram uma extensa base de informações provenientes de estudos da Embrapa, da Bayer e de mais de 370 pesquisas científicas realizadas em todas as regiões brasileiras, reunindo 4.290 amostras de solo. O resultado foi um modelo calibrado especificamente para sistemas tropicais, diferentemente das principais metodologias utilizadas atualmente, que foram desenvolvidas em regiões de clima temperado.

Barioni destaca que a adaptação às condições brasileiras representa uma vantagem estratégica. “Entre essas vantagens destacam-se a autonomia e o desenvolvimento contínuo para que não fique obsoleto. É um modelo nosso, temos a propriedade intelectual, o que é outra vantagem importante”, afirma.

Os testes realizados indicaram níveis de precisão compatíveis com os modelos internacionais mais utilizados pelo mercado. Em alguns cenários, a incerteza apresentada pelo sistema foi inferior à observada em medições tradicionais realizadas diretamente no campo, o que pode representar redução de custos e aumento da confiabilidade dos projetos.

O próximo passo será buscar a validação junto às certificadoras internacionais. Um relatório técnico está sendo preparado para submissão à Verra, principal certificadora global de créditos de carbono. Caso obtenha reconhecimento formal, o modelo poderá ser utilizado em projetos privados, programas corporativos de descarbonização e até em iniciativas ligadas ao Inventário Nacional de Emissões e Mitigação de Gases de Efeito Estufa.

Além disso, a ferramenta foi concebida para integração futura com dados de satélite, inteligência artificial e sistemas de assimilação automática de informações, ampliando sua capacidade de monitoramento em larga escala. Para uma agricultura cada vez mais conectada às agendas climáticas globais, a evolução dessas ferramentas pode ser decisiva para transformar carbono estocado no solo em ativos econômicos reconhecidos pelo mercado.

 

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