Avanço das previsões meteorológicas melhora planejamento, mas calor e má distribuição das chuvas preocupam produtores
A próxima safra brasileira começou a ser desenhada sob um ambiente de atenção crescente no campo. A possibilidade de formação de um El Niño moderado a forte no segundo semestre de 2026 passou a acender alertas entre pesquisadores, consultores e produtores diante do risco de irregularidade climática em regiões estratégicas para a produção de grãos.
Segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), existe 80% de probabilidade de ocorrência do fenômeno nos próximos meses, associado ao aumento aproximado de 1,5 °C na temperatura dos oceanos. Caso o cenário se confirme, os impactos poderão atingir diretamente o desenvolvimento da safra 2026/27 no Brasil.

O avanço da meteorologia e das ferramentas digitais ampliou a capacidade de antecipação do setor agrícola, mas especialistas alertam que a combinação entre calor excessivo e distribuição irregular das chuvas seguirá sendo um dos principais desafios produtivos do próximo ciclo.
Felipe Schwerz, professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA), explica que o fenômeno ainda está em fase de projeção, embora os sinais climáticos já sejam monitorados com atenção. “Ainda estamos falando de projeções, e a confirmação dessa intensidade deve ocorrer ao longo dos próximos meses, especialmente entre agosto e setembro. Mesmo assim, é importante que o produtor já esteja atento”, afirma Felipe Schwerz, professor da UFLA.

As projeções indicam chuvas acima da média no Sul do país, estiagens em parte do Centro-Norte e Nordeste, além de maior instabilidade climática no Centro-Oeste e Sudeste. O principal ponto de preocupação está na distribuição das precipitações ao longo do ciclo agrícola.
“O problema não é apenas o quanto chove, mas quando chove. Podemos ter o volume anual dentro da média, mas concentrado em poucos períodos, deixando lacunas hídricas em fases sensíveis das culturas”, afirma Schwerz.
A avaliação é reforçada por Gilberto Coelho, engenheiro agrícola, professor e diretor de Meio Ambiente da UFLA, que aponta avanço expressivo na precisão das previsões meteorológicas graças ao uso de inteligência artificial e aprendizado de máquina.
“O uso de IA, aprendizado de máquina, redes neurais e modelos físico-matemáticos, aliado à melhoria na resolução das imagens de satélite e à ampliação da rede de estações meteorológicas, tem contribuído diretamente para esse avanço”, afirma Coelho.

Mesmo com maior capacidade de previsão, o ambiente climático tende a exigir mais profissionalização da gestão agrícola. Segundo Coelho, ondas de calor e déficit hídrico aumentam a pressão sobre produtividade e elevam a necessidade de planejamento técnico.
“O produtor precisa aprimorar a gestão do plantio, acompanhar os boletins meteorológicos e buscar orientação técnica. Também é fundamental investir em cultivares mais tolerantes ao déficit hídrico”, afirma Coelho. Além do manejo agronômico, tecnologias voltadas à mitigação de estresse térmico e hídrico passaram a ganhar espaço nas estratégias produtivas.
Segundo Renato Menezes, engenheiro agrônomo e gerente técnico da Agroallianz, o cenário climático tende a ampliar a importância de soluções preventivas no campo. “Com a perspectiva de temperaturas acima da média e maior frequência de ondas de calor, aliada à possível irregularidade de precipitações dentro do ciclo produtivo das culturas, o manejo do estresse hídrico e térmico passa a ser um dos pilares para a sustentação da produtividade agrícola”, destaca Menezes.
O cenário reforça uma percepção cada vez mais consolidada no agronegócio brasileiro: diante das mudanças climáticas, produtividade passa a depender não apenas de genética e tecnologia, mas também da capacidade de antecipar riscos e tomar decisões mais precisas dentro da propriedade rural.




