Especialistas destacam crescimento da demanda global e defendem políticas para fortalecer produção, certificação e consumo
Embora o debate sobre alimentos orgânicos tenha ganhado espaço nas últimas décadas, os números mostram que o Brasil ainda participa de forma relativamente modesta de um mercado global que cresce impulsionado pela demanda por saúde, sustentabilidade e rastreabilidade. Enquanto países desenvolvidos ampliam o consumo e fortalecem cadeias estruturadas de produção, o setor brasileiro segue avançando, mas ainda distante do potencial que especialistas enxergam para uma das maiores potências agrícolas do planeta.
Essa avaliação esteve no centro de um debate promovido pela Rede de Socioeconomia da Agricultura (RSA), coordenada pela Embrapa, que reuniu pesquisadores e especialistas para discutir a evolução da produção orgânica, os mercados internacionais e os caminhos para ampliar a participação brasileira nesse segmento.
Os dados apresentados revelam a dimensão do mercado. Atualmente, a agricultura orgânica está presente em mais de 180 países, ocupa cerca de 99 milhões de hectares e envolve aproximadamente 4,8 milhões de produtores. O varejo global de alimentos e bebidas orgânicos movimenta cerca de 145 bilhões de euros por ano, consolidando-se como um dos segmentos mais dinâmicos do agronegócio internacional.

Segundo Ana Maria Resende Junqueira, coordenadora do Centro Vocacional Tecnológico em Agroecologia e Agricultura Orgânica da Universidade de Brasília (CVTUnB), o principal obstáculo para a expansão do consumo no Brasil continua sendo o preço. “A concentração regional auxilia a discutir oferta, certificação, logística e capilaridade territorial”, afirma Ana Maria ao comentar a distribuição das unidades produtivas no país.
O levantamento apresentado durante o evento mostra que 36% dos brasileiros consumiram produtos orgânicos recentemente, mas o consumo per capita ainda permanece muito abaixo dos níveis observados em mercados maduros. Enquanto brasileiros gastam cerca de US$ 17 por ano com orgânicos, consumidores europeus chegam a desembolsar aproximadamente US$ 400 anuais.
Em termos produtivos, o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos registra 25.178 unidades em 2025. Sul e Nordeste concentram cerca de 70% dessas propriedades, com destaque para Paraná, Rio Grande do Sul e Pará. O Brasil possui cerca de 1,3 milhão de hectares dedicados à produção orgânica, além de aproximadamente 1,7 milhão de hectares relacionados a atividades como apicultura, extrativismo e produção de espécies nativas.
Para João Paulo Guimarães Soares, pesquisador da Embrapa Cerrados, a expansão do comércio internacional abre oportunidades relevantes para países exportadores. “Esse cenário abre oportunidades para países exportadores, especialmente na América Latina, África e Ásia, que vêm ampliando sua participação no fornecimento de alimentos orgânicos para os mercados mais desenvolvidos”, resume João Paulo Guimarães Soares, pesquisador da Embrapa Cerrados.
O pesquisador observa que União Europeia e Estados Unidos importaram cerca de 5,9 milhões de toneladas de produtos orgânicos em 2024, demonstrando a força da demanda internacional. Nesse contexto, a América Latina tornou-se a principal origem das importações combinadas desses mercados, respondendo por 54,8% do volume adquirido.
Outro ponto relevante do debate foi a comparação entre Brasil e Dinamarca. Enquanto o país europeu construiu ao longo de quatro décadas uma política integrada de incentivo aos orgânicos, alcançando consumo per capita de 362 euros e participação de 12% dos orgânicos nas vendas totais de alimentos, o Brasil ainda enfrenta desafios relacionados a crédito, assistência técnica, certificação, logística e organização de mercado.
Apesar dos obstáculos, os especialistas convergem em um ponto: o potencial brasileiro permanece expressivo. Diversidade climática, ampla base de agricultores familiares, disponibilidade de áreas produtivas e crescimento da demanda por alimentos diferenciados formam uma combinação que pode ampliar a relevância do País tanto no mercado interno quanto no comércio internacional. Como destacou Lucimar Santiago de Abreu, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e moderadora do encontro, “o conjunto das culturas orgânicas do Brasil está abaixo da média mundial, o que significa que há muito espaço a ser explorado para o aumento da produção orgânica brasileira, tanto para atender o mercado interno como o mercado de exportação”.




