Expansão dos terminais privados cria novos corredores para o agro e coloca capacidade de atração de investimentos no centro da disputa regional
A competição entre os estados do Sul por investimentos e cargas começa a ganhar uma nova frente no litoral. Projetos bilionários de terminais privados estão ampliando as alternativas de embarque em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, enquanto o Paraná discute como acrescentar capacidade ao complexo de Paranaguá e evitar que parte da expansão logística das próximas décadas ocorra fora de seu território.
Para o agronegócio, essa movimentação interessa diretamente. Mais terminais podem significar novas rotas, maior capacidade de armazenagem e embarque e concorrência entre operadores. Ao mesmo tempo, decisões sobre onde instalar estruturas portuárias influenciam investimentos em rodovias, ferrovias, indústrias e serviços associados ao fluxo das commodities.
Os Terminais de Uso Privado (TUPs) já respondem por cerca de 65% da movimentação portuária brasileira, segundo dados da Antaq. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, foram formalizados 25 instrumentos contratuais relacionados a TUPs, envolvendo R$ 9,23 bilhões em investimentos privados.
Um dos movimentos mais significativos ocorre justamente ao lado do Paraná. Em São Francisco do Sul, o Terminal de Granéis de Santa Catarina recebeu autorização para operar com capacidade inicial de até 6 milhões de toneladas anuais. Em Itapoá, a Coamo – cooperativa sediada em Campo Mourão (PR) – anunciou R$ 3 bilhões para construir um terminal com três berços e capacidade projetada de 11 milhões de toneladas por ano.
A escolha chama atenção porque a cooperativa é paranaense e já escoa aproximadamente 5 milhões de toneladas anuais por seus terminais em Paranaguá. Para João Arthur Mohr, superintendente da Federação das indústrias do Estado do Paraná (FIEP), operações de Coamo e Bunge que hoje somam quase 7 milhões de toneladas em Paranaguá poderão futuramente encontrar capacidade nos novos terminais catarinenses.
O Rio Grande do Sul também amplia a aposta. O Porto Meridional, em Arroio do Sal, prevê aproximadamente R$ 1,3 bilhão, enquanto dois TUPs associados ao Projeto Natureza, da CMPC, em Rio Grande e Barra do Ribeiro, somam investimentos estimados em cerca de R$ 1,4 bilhão.
Mais capacidade, não substituição
A discussão paranaense não significa reduzir a importância de Paranaguá. O complexo permanece entre os principais do País e registra expansão de movimentação e investimentos. A questão levantada pelas entidades do setor produtivo é criar estruturas complementares capazes de acompanhar o crescimento futuro.
“Nós precisamos ampliar a oferta de portos para embarque. Isso faz com que haja uma competição entre os próprios terminais, o que ajuda a reduzir o custo de logística”, afirma Nelson Costa, superintendente da Federação e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Fecoopar).
Entre as possibilidades aparece Pontal do Paraná. O vice-governador Darci Piana citou previsão de R$ 6 bilhões em investimentos para um novo porto, concebido como complemento a Paranaguá. O projeto teria calado de 18,5 metros.
A disputa logística do Sul, portanto, tende a ser definida menos pelo desempenho atual de cada porto e mais pela capacidade de atrair capital, criar novas estruturas e oferecer ao produtor e às empresas diferentes caminhos para levar suas cargas ao mercado internacional.


