Produtos europeus mais competitivos pressionam cooperativas, enquanto nichos e valor agregado podem abrir oportunidades de exportação
A redução gradual das barreiras comerciais entre Mercosul e União Europeia abre uma avenida de mão dupla para o agronegócio. Ao mesmo tempo que produtos brasileiros ganham novas possibilidades no mercado europeu, mercadorias produzidas no bloco também podem chegar ao Brasil em condições mais competitivas. Para as cooperativas, o novo cenário exige olhar tanto para as exportações quanto para a defesa de espaço no mercado doméstico.
Nesse ambiente, competir apenas por preço pode ser uma estratégia limitada. Origem, identidade, diferenciação e valor agregado aparecem como caminhos para conquistar consumidores e reduzir a exposição a uma disputa baseada exclusivamente em custos. O tema foi discutido no painel Conexão de Negócios, promovido pelo Sistema Ocergs durante a Expointer.
Segundo Kelly Bruch, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a desgravação tarifária permitirá que produtos europeus cheguem ao mercado brasileiro com tributação equivalente e, em determinadas situações, maior competitividade. Entre os segmentos mais impactados estão vinhos, carnes, arroz, queijos, leites e embutidos.
O caminho inverso também cria possibilidades. Para aproveitar o mercado europeu, porém, as cooperativas terão de atender exigências técnicas, sanitárias e de certificação, além de desenvolver estratégias adequadas de posicionamento.
“O consumidor europeu valoriza produtos que carregam uma história, uma origem e uma coletividade, e esse é um diferencial que o cooperativismo gaúcho pode explorar”, afirma Kelly. Para a pesquisadora, produtos de nicho e de maior valor agregado podem ganhar espaço nesse ambiente.
A origem ganha importância adicional porque o acordo prevê proteção às indicações geográficas e denominações de origem. Isso cria restrições para produtos brasileiros que utilizam determinadas denominações europeias, mas também pode estimular a valorização de alimentos nacionais vinculados a territórios reconhecidos.
Cooperativismo como marca
Outra possibilidade é transformar a própria identidade cooperativista em argumento comercial. Cerca de 150 cooperativas gaúchas já utilizam o carimbo SomosCoop em embalagens e comunicação. A proposta é mostrar ao consumidor que por trás do produto existe uma organização formada coletivamente por produtores.
A necessidade de diferenciação também foi destacada por Marcelo Fogaça, fundador da Quarterback Trade & Marketing. “Se um consumidor me escolher por preço, eu tenho convicção de que ele também vai me trocar por preço”, afirmou ao defender a incorporação de outras variáveis à estratégia comercial.
Para o presidente do Sistema Ocergs, Darci Hartmann, antecipar essas discussões ajuda as cooperativas a se prepararem para as transformações do mercado. A abertura comercial, portanto, coloca dois desafios simultâneos: aproveitar oportunidades na Europa e construir diferenciais suficientemente fortes para enfrentar a maior concorrência no Brasil.


