Presidente executiva do Sistema OCB assume cargo dentro de um modelo de governança dual, somando com Márcio Lopes de Freitas no comando da entidade
Pela primeira vez em mais de meio século de história, o Sistema OCB — uma das mais influentes entidades do agronegócio e da economia brasileira — é comandado por uma mulher. À frente de um modelo de negócios que reúne mais de 20 milhões de cooperados, responde por cerca de 10% do PIB nacional e exerce protagonismo crescente em áreas estratégicas como crédito, agro, saúde e infraestrutura, Tania Zanella simboliza uma nova fase para o cooperativismo no país.
Ela já vinha exercendo papel de destaque na entidade, como superintendente, e agora assume a presidência executiva da OCB num modelo de gestão dual. Márcio Lopes de Freitas, que comandou a organização por décadas, segue como presidente do Conselho de Administração, com papel fundamental na condução estratégica, na representação de alto nível junto a lideranças cooperativistas e no diálogo com a base e com atores relevantes dos setores público e privado. De um lado, gestão executiva. Do outro, liderança institucional experiente.
Natural de Ipumirim, no interior de Santa Catarina, Tania cresceu em um ambiente onde a cooperação não era conceito, mas prática cotidiana. A experiência comunitária do meio rural, marcada pela interdependência e pelo senso coletivo, moldou desde cedo sua visão sobre desenvolvimento econômico e organização social — valores que, décadas depois, definiriam sua trajetória profissional.
Formada em Direito pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Tania construiu uma carreira que combina sólida base jurídica com atuação institucional e política. Ao longo do percurso, especializou-se em áreas como Direito Público, Direito Civil e gestão de serviços sociais autônomos, desenvolvendo uma compreensão estratégica sobre regulação, políticas públicas e diálogo entre setores produtivos e governo.
Antes de ingressar no Sistema OCB, em 2008, atuou na Câmara dos Deputados e participou da articulação da Frente Parlamentar do Cooperativismo (Frencoop), experiência que lhe proporcionou visão aprofundada sobre segurança jurídica, representação institucional e construção de consensos — competências que se tornariam centrais em sua ascensão dentro da organização.
Depois de mais de 18 anos de atuação na entidade, Tania Zanella chega à presidência executiva em um momento de expansão do cooperativismo brasileiro, marcado por maior protagonismo econômico, avanço tecnológico e crescente reconhecimento do modelo como alternativa sustentável de desenvolvimento.
Nesta entrevista exclusiva ao caderno AgroCooperativas, da Revista AgroRevenda, ela fala sobre sua trajetória, os desafios de liderança feminina no setor e as perspectivas para o cooperativismo em um cenário de profundas transformações econômicas e sociais.
AgroRevenda – Como evoluiu o seu trabalho dentro da OCB até chegar à presidência?
Tania Zanella – Essa evolução aconteceu de forma gradual e muito conectada ao amadurecimento institucional do próprio Sistema OCB. Iniciei no Sistema OCB na área de Assessoria Parlamentar, em um momento em que o cooperativismo ainda precisava ganhar mais espaço no debate público nacional.
Desde o início, meu trabalho esteve muito ligado à construção de diálogo com o Congresso Nacional, o Executivo e órgãos reguladores. Foi uma caminhada intensa, de aprendizado constante, e fundamental para entender a realidade de cooperativas de todos os ramos e regiões do país. Para além de defender pautas, o desafio sempre foi traduzir as necessidades das cooperativas em políticas públicas efetivas. Com o tempo, a área ganhou um escopo maior, tornando-se a Gerência de Relações Institucionais, que hoje tem o papel de defender e representar o cooperativismo junto aos 3 Poderes, a entidades parcerias e organismos internacionais.
Ao longo dos anos, assumi funções estratégicas, como gerente-geral e superintendente nacional, sempre com foco em governança, articulação institucional e fortalecimento do Sistema como um todo. Fui a primeira mulher a ocupar várias dessas posições, o que naturalmente trouxe desafios adicionais, mas também a oportunidade de abrir caminhos. A Presidência Executiva é resultado de um processo coletivo de amadurecimento institucional da OCB, que hoje opera com o modelo de governança dual: moderno, com clara divisão de papéis e foco em entrega.
AgroRevenda – A entidade tem um histórico consolidado como uma das mais poderosas do agronegócio brasileiro e de outros ramos. Como é assumir esse desafio?
Tania Zanella – É, sem dúvida, uma responsabilidade enorme — e que precisa ser encarada com serenidade. A OCB representa um sistema que movimenta bilhões, gera milhões de empregos e está presente em praticamente todos os municípios do país. Isso exige equilíbrio, diálogo e visão estratégica. Assumo esse desafio consciente de que liderança, no cooperativismo, não é protagonismo individual, mas capacidade de articular interesses, ouvir diferentes vozes e construir consensos em favor do desenvolvimento das comunidades. Essa é a essência do cooperativismo, que levo como valor e que norteia a minha atuação todos os dias. Atuar com esse propósito me dá a convicção de estar no caminho certo, leveza e energia para tocar em frente esse desafio.
AgroRevenda – Muda algo na condução da entidade?
Tania Zanella – É importante deixar claro que o novo modelo de governança adotado pelo Sistema OCB não tem nenhuma pretensão de ruptura. Pelo contrário. O que existe é continuidade, amadurecimento institucional e clareza de papéis. A entidade construiu, ao longo dos anos, uma atuação sólida, respeitada e eficiente, e esse caminho continuará sendo mantido e fortalecido.
A atual estrutura reforça um modelo moderno de governança, em que as funções estão bem definidas. Como presidente executiva, meu papel é estar à frente da gestão do dia a dia, da execução da estratégia, da integração das áreas técnicas, do relacionamento com as Organizações Estaduais e do acompanhamento direto dos pleitos do cooperativismo. É uma atuação muito conectada à implementação da estratégia e à eficiência da nossa organização sistêmica.
Já o presidente Márcio Lopes de Freitas, que segue à frente do Conselhos de Administração do Sistema OCB, continua a exercer seu papel fundamental na condução estratégica, na representação de alto nível junto a lideranças cooperativistas e no diálogo com a base e com atores relevantes dos setores público e privado.
Essa separação permite que a OCB atue com ainda mais força: de um lado, uma gestão executiva focada em resultados; de outro, uma liderança institucional experiente, com grande capacidade de articulação e visão estratégica.
Esse modelo dá mais estabilidade, previsibilidade e capacidade de resposta. Ele garante que o Sistema OCB continue defendendo com firmeza os interesses do cooperativismo brasileiro, ao mesmo tempo em que se torna mais ágil, mais próximo das cooperativas e ainda mais preparado para os desafios do futuro.
AgroRevenda – Como será seu trabalho como presidente executiva na prática?
Tania Zanella – Na prática, meu trabalho como presidente executiva será marcado por proximidade com as necessidades da OCEs e do cooperativismo, foco na execução e fortalecimento da gestão do Sistema OCB, em preparar uma equipe de excelência para defender e desenvolver o nosso modelo de negócios. O novo modelo de governança adotado deixa isso muito claro: cabe à presidência executiva transformar as diretrizes estratégicas em ações concretas, garantindo eficiência, alinhamento e resultados para as cooperativas.
Isso significa atuar de forma muito próxima das Organizações Estaduais, das lideranças cooperativistas e das equipes técnicas, promovendo escuta ativa, alinhamento permanente e integração das agendas nacionais com as realidades regionais.
Meu papel envolve também coordenar as frentes prioritárias da gestão — como educação cooperativista, governança, representação institucional, inovação, comunicação e cultura organizacional — assegurando que todas conversem entre si e estejam alinhadas à estratégia definida pelo Conselho de Administração.
Além disso, haverá um cuidado especial com o fortalecimento da cultura cooperativista, por meio do aprofundamento da solução CulturaCoop, conectando valores, princípios e identidade à gestão, à formação de lideranças e à atuação institucional. A perenidade do cooperativismo passa, necessariamente, por uma cultura forte e compartilhada.
Esse trabalho cotidiano, focado na execução, permite que o Sistema OCB seja mais ágil, mais integrado e mais próximo das cooperativas, ao mesmo tempo em que reforça a clareza de papéis da governança: enquanto o Conselho de Administração se dedica às diretrizes estratégicas e à visão de longo prazo, a presidência executiva garante a implementação eficiente dessas decisões, com responsabilidade, transparência e compromisso com resultados.
AgroRevenda – Qual é sua avaliação sobre o estágio atual do cooperativismo brasileiro?
Tania Zanella – O cooperativismo brasileiro vive um momento de maturidade e relevância estratégica. Ele é um pilar estruturante da economia nacional. As cooperativas são competitivas, inovadoras, bem governadas e cada vez mais reconhecidas pela sociedade e pelo poder público. Ao mesmo tempo, ainda há espaço para avançar em escala, integração e comunicação com a sociedade.
AgroRevenda – No caso das cooperativas agropecuárias, ainda há o que crescer?
Tania Zanella – Sem dúvida, ainda há muito espaço para crescer. Para se ter uma ideia, segundo o IBGE, o Brasil possui 5 milhões de agricultores e agricultoras, dos quais 1 milhão estão no cooperativismo agropecuário. Desta forma, em termos de quadro social, ainda existe muito espaço para crescer em regiões, produtos e presença.
Esses números demonstram também como o cooperativismo agropecuário potencializa e organiza a agricultura brasileira, principalmente ao olharmos que os 20% dos agricultores brasileiros inseridos no cooperativismo são responsáveis por mais de 50% da produção de grãos do país, além de 75% do trigo, 55% do café, 50% dos suínos e cerca de metade do leite, feijão e algodão brasileiros. Da mesma forma em que estão presentes na fruticultura, horticultura, proteínas animais, setor sucroenergético, fibras naturais, borracha natural e demais cadeias agropecuárias.
Toda essa representatividade é resultado de um desempenho pujante do cooperativismo agropecuário brasileiro consequência de uma combinação muito concreta de fatores: profissionalização da gestão e governança, combinação de públicos no quadro social, pequenos, médios e grandes produtores rurais, integração de atividades e foco permanente no cooperado. Esse modelo de negócios coletivo e seus atributos positivos organizam a produção, reduzem custos de transação, fortalecem o poder de negociação e oferecem acesso estruturado a insumos, assistência técnica, armazenagem, agroindustrialização e comercialização. Como efeito, todo esse conjunto gera competitividade, diversificação de riscos e previsibilidade, elementos essenciais para o produtor rural, para as sociedades e para o Brasil.
Dito isso, o futuro do cooperativismo agropecuário, cada vez mais, passa pela criação de valor aos cooperados. Atendimento e satisfação aos donos das cooperativas, que geram prosperidade e podem ser ampliados por meio de atendimento técnico especializado, são 9 mil especialistas no cooperativismo agropecuário hoje em dia, além de agroindustrialização, desenvolvimento de marcas próprias, adoção de estratégias coletivas de rastreabilidade, sustentabilidade e diferenciação de produtos, assim como poder de comercialização voltado para ampliação do acesso a mercados internacionais. O cooperativismo permite que pequenos e médios produtores participem dessas cadeias de valor de forma organizada e competitiva.
Outro vetor importante de expansão está na inovação e na tecnologia, com destaque para a digitalização, a agricultura de precisão e, mais recentemente, o uso estratégico de inteligência artificial aplicada à produção, à logística e à comercialização. A cooperativa tem uma vantagem decisiva nesse processo: ela consegue escalar tecnologia com governança, confiança e orientação técnica, transformando inovação em ganho coletivo.
AgroRevenda – Quais são os principais desafios do cooperativismo hoje?
Tania Zanella – Os principais desafios passam por sucessão de lideranças, atração de jovens, transformação digital, adaptação às exigências ESG e fortalecimento da governança. Além disso, é fundamental ampliar o entendimento da sociedade sobre o que é o cooperativismo e o impacto positivo que ele gera na economia e nas comunidades.
AgroRevenda – O cooperativismo de seguros é o 8º ramo. O que esperar?
Tania Zanella – O ramo Seguros nasce com um potencial enorme, como 8º ramo do cooperativismo brasileiro, este novo segmento representa uma virada histórica e estrutural para o Sistema OCB e para o próprio mercado de seguros. O ramo já inicia amparado por experiências internacionais consolidadas, sustentado por dados econômicos robustos e é o resultado de anos de articulação política e técnica do Sistema OCB. Na expectativa da conclusão do processo de regulamentação da atividade, por meio da Susep, o Sistema OCB espera que esta seja proporcional e adequada ao modelo cooperativo. As cooperativas desse setor têm tudo para crescer oferecendo produtos mais adequados, com preços justos e foco no cooperado. É um segmento que pode ganhar escala rapidamente, sempre com governança sólida e atuação responsável.
(Reportagem publicada originalmente no caderno AgroCooperativas, da edição 111 da revista AgroRevenda)





