Ele é alto, incisivo e um dínamo para falar, escrever, dar palestras, viajar e trabalhar. Engenheiro Agrônomo graduado na Faculdade de Agronomia da Universidade de São Paulo (ESALQ – USP), em 1991, fez toda a carreira de pós-graduação em estratégias empresariais e chegou a professor titular da Faculdade de Administração da USP em Ribeirão Preto, complementando a pós-graduação na França e Holanda. Ainda é professor internacional da Universidade de Buenos Aires e Universidade de Purdue (Indiana – EUA). Especializado em planejamento e gestão estratégica, já realizou 300 projetos, organizou 80 livros publicados em 10 países, 200 artigos em periódicos científicos internacionais e nacionais. Realizou mais de 1.850 palestras em 23 países. Fundou a empresa de consultoria Markestrat em 2004 e a Harven Agribusiness School em 2024. A Revista AgroRevenda acompanhou a apresentação de Fava Neves durante o Simpósio organizado em Campinas (SP) pela Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (Asbram). Confira!
AgroRevenda – Qual o saldo pessoal seu destes 34 anos de Agronomia?
Marcos Fava Neves – Tem uma frase que me emociona toda vez quando vou contar uma história. A de que o Brasil é a ‘fazenda do mundo’. E sou grato a Deus por ter me formado em Engenharia Agronômica aqui, há 34 anos. Era uma época em que ainda vivíamos dependentes de importações. Chegamos a comprar carne contaminada pelo acidente nuclear da usina de Chernobyl, em 1986. Hoje, temos uma potência exportadora.
AgroRevenda – E como houve a ‘virada’?
Marcos Fava Neves – Quero dar, aqui, neste evento, os parabéns a várias famílias brasileiras que foram importantes na construção dessa história fantástica, que muito nos orgulha. Em 1994, quando íamos a eventos, sentávamos no fundo do auditório para ouvir os profissionais do agronegócio de outros países falarem. Hoje, nós estamos no palco, fazendo as palestras mais importantes, contando as histórias vencedoras do nosso setor. É o que todos querem saber. Desde o ano em que conheci uma pessoa fantástica, que admiro muito, Ney Bittencourt de Araújo, criador da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), comandante da Agroceres, empresa criada pelo pai. Hoje, ele estaria orgulhoso da corporação completar 80 anos de atuação.
AgroRevenda – E o saldo do Fava Neves empresário?
Marcos Fava Neves – Realmente, sou um professor universitário esquisito porque, ao mesmo tempo, sou um empresário, que acredita na iniciativa privada, ultra pró mercado. O que é meio controverso em nosso país. Sou um elemento raro. E tenho muito orgulho de ajudar a criar, em 2023, uma universidade do agro, uma associação com o grupo Educacional SEB, do empresário Chaim Zaher, que chega neste ano a 300 alunos de graduação, todos filhos e filhas de produtores rurais. Se Deus quiser, daqui alguns anos, vamos ter gente do mundo todo.
AgroRevenda – E o futuro do agro, é só paraíso?
Marcos Fava Neves – Não, tenho uma preocupação brutal, estrutural, com a mão de obra. É o que mais me desorienta. Porque os outros problemas se resolvem. Meu objetivo é compartilhar o que penso para dividir com outras pessoas. O passado incrível, o futuro dos mercados e como o Brasil venceu. Como sou administrador e professor da área, sempre tenho uma agenda de trabalho com empresas, produtores e nossa nação. Enquanto estamos aqui, temos guerras pelo mundo, presidentes que tomam decisões sobre impostos, medidas que não estavam no radar, negociações de paz que podem até nos prejudicar, como no caso de Rússia e Ucrânia. São muitas coisas difíceis de entender. Precisamos de pessoal qualificado para tanto.
AgroRevenda – Há mais problemas?
Marcos Fava Neves – Tem muita gente com dificuldade e muita gente bem no agro. Vários perderam patrimônio nos dois últimos anos, com os problemas de crédito, comercialização e preços dos produtos no mercado nacional e internacional. E mesmo assim seguimos produzindo. Quem está bem combinou produção e venda. E o panorama nas cidades onde a atividade agrícola e pecuária é preponderante sempre apresenta boas notícias, novidades. Diferente das cidades tradicionais. Em Chapecó, Lucas do Rio Verde e Sorriso, por exemplo, tem sempre uma coisa diferente, algo surgindo, como agora com as usinas que produzem etanol de milho. Em boas áreas, a produção rende até R$ 7,5 mil por hectare.
AgroRevenda – Logo, tem notícia boa, também?
Marcos Fava Neves – Há trinta anos, tínhamos telefone fixo, ligação a cobrar, fotografias em filmes. Neste caminho, fomos responsáveis por fazer um autêntico ‘descanso de tela’. Hoje, somos os fornecedores de comida do planeta. E será assim nas próximas décadas. Na minha leitura, quem vai vencer no setor será a América do Sul, com o Brasil à frente. E para baixo com a China e a África. Todos dependem cada vez mais da gente. Essencialmente, os países do sudeste asiático. Tem explicação. Nosso crescimento nas últimas décadas foi impressionante. Com diversificação de cadeias produtivas, carnes, frutas, sucos, papel, celulose etc. Nós produzimos papel comum a um custo de um terço do resto do mundo. Nossa balança comercial saiu de US$ 600 milhões para US$ 50 bilhões.
AgroRevenda – Por que tanto otimismo com os países do sudeste asiático?
Marcos Fava Neves – Porque, hoje, eles são a segunda China. Economias emergentes da Ásia que compravam zero e hoje compram US$ 3 bilhões. A invasão asiática é fundamental para nossas associações, para fincarmos bandeiras lá e ganhar novos mercados.
AgroRevenda – Como é a história do ‘quadrinho antidepressivo’?
Marcos Fava Neves – Estamos à frente de todos os países do mundo em nove setores agropecuários. Vamos pensar na soja, um grão fundamental para o ser humano. Muitos brasileiros ainda ficam falando sobre monocultura da soja e nem se dão conta de quantas vezes ao longo do dia usaram produtos à base desse grão. Nenhum país entrega 60% da soja comprada pelo planeta inteiro. A cada minuto, o agronegócio brasileiro exporta 1,7 milhão de reais. Soja, 500 mil reais. Carnes, 270 mil reais. Dinheiro internacional que entra no Brasil. Com estruturação do trabalho de empreendedores rurais, insumos, produtividade etc. Fonte de um esforço profundo. Somos muito derrotistas. Temos que nos lembrar dessas informações e parar de reclamar tanto. Sempre precisamos olhar para isso para ficarmos felizes.
AgroRevenda – O poder público lembra disso tudo?
Marcos Fava Neves – Quem gosta do agro é quem defende o emprego, a inclusão social, a geração de renda. Sem produção e venda, não tem geração de renda e distribuição de merenda. Precisamos ensinar isso ao administrador público. Para ele entender que o ciclo precisa mudar porque senão ele mata a produção. De pedreiros, arquitetos, personal trainer, donos de pizzaria, revenda de automóveis. Sem geração de caixa não há crescimento. A cada hora você vê uma coisa nova em regiões do agro. A movimentação que ocorre. O segmento ajudou o Brasil a se desenvolver. Se tirasse o agro, os indicadores de desenvolvimento do nosso país seriam limitadíssimos. Não seríamos o país que somos hoje.
AgroRevenda – E o futuro?
Marcos Fava Neves – Precisamos ficar alinhados com a demanda. Estudo muito esse tema e posso garantir que vai ter consumidor. Agora, a expansão precisa da garantia do consumo. O Brasil, em seis anos, aumentou a área de grãos em 18 milhões de hectares. Veja o tanto de dinheiro a mais que entrou pela expansão. Essa nossa safra não foi boa para quem está com dívida e precisou arrendar. Mas tem gente que está bem e outra que está super bem. Quem tem o imóvel próprio e dívida baixa, navega melhor. É ficar mais eficiente antes de ficar maior. E a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) já avisou que a nova safra vai contar com 2,5 milhões de hectares plantados adicionais. Mercado vai ter, pois têm nações que não vão plantar comida. Só comprar. Explosão de população na Nigéria, Indonésia, no Paquistão, em Bangladesh. Já o preço é outra conversa.
AgroRevenda – Não é otimismo demais?
Marcos Fava Neves – A coisa não vai parar por aí pelas perspectivas. Em 2035, deveremos embarcar dois terços da soja e um terço de milho e algodão do trade internacional. Olhe que éramos nada em duas dessas culturas em 2010. Um feito fenomenal.
AgroRevenda – E a safra de verão 2025-2026? Promete?
Marcos Fava Neves – O clima da próxima safra vai ser bom, o preço da soja não vai atrapalhar. A agricultura brasileira tem um grande amigo ultimamente que é o câmbio. Sou empresário e alerto: cuidado com ele. Temos contratado desajuste fiscal aqui, há muita confusão lá fora, tem o cenário de eleições no ano que vem. Se aparecer um candidato de oposição que tenha uma plataforma correta para o país, o câmbio vai descer. E quem não vendeu soja vai se arrepender. Já nas carnes, é morro acima, consumo de frango, suínos e bovinos. E o boi me surpreendeu bastante. Com o apelo chinês, que não resiste a um bife bonito no prato de casa ou do restaurante. Assim como a cana ressurgiu com o carro flex. E ainda o mercado da bioenergia. Máquinas e veículos movidos a biogás, etanol e energia elétrica. Os agentes produtivos gerando a própria energia que produzem. Sem falar no etanol para aviões e navios. É um empoderamento impressionante e vocês precisam ficar atentos. Temos 56 unidades produtivas de etanol de milho erguidas em apenas últimos dez anos. Quando visito Luís Eduardo Magalhães, fico surpreso. Eles vão processar o sorgo, uma coisa impressionante. Ninguém vai comprar gasolina lá. E sim etanol feito no hectare plantado lá mesmo. E ainda resta o DDG para a alimentação animal, o que atrai os confinamentos. Depois, o animal faz esterco, cama de resíduos, fertilizante, biogás, biofertilizantes, fertilizantes organominerais. Um processo de bioenergia que fortaleze demais nossa produção.
AgroRevenda – E o que é o processo de ‘carnificação’?
Marcos Fava Neves – Passamos um momento muito importante, bonito. A ‘carnificação’ do agro brasileiro. Se não vendêssemos carnes de aves e suínos, e sim soja e milho, não faturaríamos US$ 13 bilhões de dólares e sim US$ 3 bilhões. Somos fabricantes de comida. Três refeições ao dia para bilhões de pessoas. O mundo pode ficar sem vender carro elétrico e celular. Café da manhã, almoço e jantar não. Tanto que os países que importam alimentos investem sem parar no Brasil. E aqui dentro esse movimento envolve um número sem fim de empresas, técnicos, pessoas, uma cadeia sofisticada.
AgroRevenda – Tem mais possibilidades de sofisticação?
Marcos Fava Neves – É claro. O mercado de produtos prontos. Temos que bater recorde também em artigos industrializados e reduzir as importações. Olha que coisa linda o Paraná fez. Comprávamos muito malte no exterior e seis cooperativas investiram R$ 1,6 bilhão em uma fábrica, erguida ao ladinho da Heineken e Ambev. Vamos deixar de importar R$ 800 milhões por ano e defender os nossos mercados aqui dentro. 80 mil hectares por ano cultivados, R$ 250 milhões investidos todos os anos e pagamento de impostos no valor de R$ 350 milhões. A merenda está aqui. Nosso trabalho é produzir, vender, ter caixa.
AgroRevenda – E como você enxerga o agro maior, dos EUA?
Marcos Fava Neves – Sempre que vou aos Estados Unidos, tiro fotos das gôndolas dos supermercados, confiro tudo e elogio a qualidade dos produtos brasileiros que encontro para os balconistas. E reflito. Como o Brasil vai vencer num mercado que cresce, é competitivo e o preço é encrenca? Se você olhar o resultado financeiro de um produtor rural americano nesta safra, quem arrendou terra perdeu dinheiro. E eles acham estranho nós aumentarmos a área de plantio. Eu respondo que isso ocorre porque os caras aqui estão ganhando dinheiro.
AgroRevenda – Como atuar adequadamente nessa disputa?
Marcos Fava Neves – Não podemos deixar de fazer gestão por metro quadrado, pixel, monitorando a imagem, cuidar sem parar da inovação tecnológica. Tenho convicção que o agro não é só grão. São equipamentos, insumos, robôs rodando nas lavouras, serviços, franquias. Tudo sendo exportado. Colocar nossa criação lá fora. Nossa estratégia de crescimento é ficar ligado que há muita mudança no mundo. Instabilidade. A reação aos fatos é maior do que o próprio fato ocorrido. Para complicar, lidamos com uma coisa frágil. Pecuária e agricultura são indústrias ‘a céu aberto’. Não é uma fábrica de baterias. Mas ainda assim evoluímos. Mesmo com gripe aviária, tarifas americanas, preços em queda, dependência de insumos importados.
AgroRevenda – O que não deve ser feito?
Marcos Fava Neves – O grande erro é todo mundo sair plantando, comprando tudo caro. Procurem investir no seu hectare atual para ficar mais eficiente. Esqueça a expansão pelo volume. O negócio é a maturação dos investimentos. Ter caixa. A atividade é difícil. Por outro lado, nosso caro governo federal precisa conduzir uma política externa sábia. Sem querer caçar brigas inúteis. Precisamos torcer para o Brasil dar certo. Diversificar as fontes de suprimentos e os destinos de exportação. Investir em logística e armazenagem. Atrair investidores internacionais para nossas empresas. Desenvolver mercados com a APEX (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). Menos ideologia e mais pragmatismo. E dá-lhe comunicação. Gerenciem as empresas bem que os próximos vinte anos serão ótimos. Somos o único país que pode expandir a área de produção sem causar tragédia. Pode ser de até 20 milhões de hectares numa década. Só com segunda safra e intensificação da pecuária.


