Uma empresa do GRUPO PUBLIQUE

Quando o agro deixa de produzir volume e entrega nutrição

Compartilhe:

Estamos diante de uma transformação estrutural, ainda em estágio inicial, mas com vetores claros de consolidação. A forma como a sociedade se relaciona com a alimentação está mudando, impulsionada por uma combinação de maior consciência sobre saúde preventiva e avanços nas terapias metabólicas.

A própria FAO já aponta que a transição para dietas mais saudáveis faz parte de uma transformação mais ampla dos sistemas alimentares globais, pressionada por desafios como obesidade, doenças crônicas e qualidade nutricional. Ao mesmo tempo, estimativas de mercado indicam que medicamentos anti-obesidade podem ultrapassar US$ 100 bilhões até o fim da década, o que ajuda a dimensionar o tamanho e a velocidade dessa mudança.

Medicamentos como Ozempic e Mounjaro são apenas a face mais visível desse movimento. Ao atuarem na regulação do apetite, eles reduzem a ingestão calórica e alteram preferências alimentares. Já se observa menor consumo de ultraprocessados e maior seletividade por alimentos mais nutritivos. Na prática, a comida deixa de ser consumida por impulso e passa a ser consumida por função.

E essa mudança, embora silenciosa, tem implicações profundas. Se comemos menos em volume, precisamos comer melhor em qualidade. Historicamente, o agronegócio foi orientado por uma lógica clara: maximizar produtividade, medida em toneladas por hectare. Esse modelo foi essencial para garantir segurança alimentar global. Mas agora começa a emergir um novo eixo de geração de valor: nutrientes por hectare.

Não se trata de substituir produtividade por qualidade, mas de sobrepor camadas. Um modelo híbrido, em que eficiência produtiva e eficiência nutricional coexistem. A própria agronomia brasileira já discute, há anos, a necessidade de olhar para a composição dos alimentos, ajustando manejo, fertilidade do solo e nutrição de plantas não apenas para produzir mais, mas para produzir melhor.

Esse ponto se torna ainda mais crítico quando observamos o cenário global. A FAO estima que mais de 2 bilhões de pessoas convivem com deficiências de micronutrientes. Ou seja, a chamada “fome oculta”. Nutrientes como zinco, ferro, magnésio e selênio já são insuficientes na dieta de grande parte da população. Em um contexto de menor ingestão de alimentos, essa conta fica ainda mais apertada.

A densidade nutricional, portanto, deixa de ser diferencial e passa a ser requisito. É nesse contexto que a biofortificação ganha protagonismo. Iniciativas lideradas por organizações como a HarvestPlus, em parceria com a FAO, já demonstram que é possível aumentar o teor de micronutrientes em culturas como arroz, milho e feijão em larga escala, com impactos mensuráveis na saúde pública. O desafio agora não é provar que funciona, mas sim escalar.

E escalar exige articulação. O produtor passa a incorporar ao manejo uma visão orientada à qualidade nutricional, muitas vezes sem mudanças estruturais profundas, porém com um novo olhar técnico. Bioinsumos, fertilizantes especializados e estratégias de nutrição de plantas permitem enriquecer alimentos mantendo a eficiência operacional.

A indústria ganha protagonismo na validação e padronização desses atributos. O varejo, por sua vez, assume um papel cada vez mais relevante na tradução dessa ciência para o consumidor.

Porque, no fim do dia, esse é também um desafio de comunicação. O consumidor está em transição. Há uma preocupação crescente com saúde, mas ainda existe dificuldade em interpretar atributos como densidade nutricional ou biofortificação. Sem tradução clara, não há percepção de valor. E sem percepção de valor, não há mercado.

Por isso, a mensuração se torna um ponto crítico. Sem métricas confiáveis de densidade nutricional, não há transparência. E sem transparência, não há confiança. Desenvolver sistemas claros de medição, rotulagem e certificação será determinante para viabilizar essa nova lógica.

Existe, claro, um risco importante nesse processo: o de que alimentos mais nutritivos se tornem menos acessíveis. Estudos sobre desigualdade alimentar mostram que populações de menor renda já enfrentam maior dificuldade de acesso a alimentos saudáveis. Se não houver escala, políticas públicas e incentivos adequados, a nutrição pode se tornar um privilégio, quando, na verdade, deveria ser um direito.

Por outro lado, não avançar nessa agenda pode ser ainda mais excludente, ao empurrar a população para a dependência de suplementação nutricional, muitas vezes inacessível. O Brasil, nesse cenário, está particularmente bem posicionado. Temos escala produtiva, diversidade de culturas, clima favorável e uma reconhecida capacidade de transformar ciência em prática no campo. Se conseguirmos alinhar cadeia, conhecimento e mercado, podemos liderar uma nova agenda global. E não apenas de produção, mas de nutrição.

É preciso reconhecer: ainda estamos majoritariamente focados em volume. O que fez e ainda faz sentido. Só que o mundo está mudando, e essa mudança abre uma janela de oportunidade que não deve permanecer aberta por muito tempo.

Nos próximos cinco a dez anos, veremos reflexos claros dessa transformação. Na prateleira, rótulos mais sofisticados, com indicadores nutricionais mais completos e relevantes. No campo, decisões agronômicas são cada vez mais orientadas não apenas à produtividade, mas à composição dos alimentos.

O “pós-Ozempic” não é sobre um medicamento. É sobre uma mudança estrutural na forma como a sociedade valoriza a comida. E, diante disso, a pergunta que fica para o agronegócio é inevitável: estamos preparados para sair de uma lógica baseada em quantidade e avançar para uma nova fronteira baseada em qualidade nutricional?

Ithamar Prada é sócio fundador e CEO da Synkka.

Encontre na AgroRevenda