Pesquisa mostra que processamento doméstico pode gerar R$ 192 bilhões ao PIB até 2050
O futuro dos minerais críticos brasileiros pode depender menos da quantidade extraída e mais da capacidade do país de transformar essa riqueza mineral em produtos industriais de maior valor agregado. Em um cenário de rápida expansão da transição energética global, especialistas apontam que agregar processamento, tecnologia e manufatura às cadeias produtivas pode multiplicar os benefícios econômicos muito além da atividade de mineração.
Essa é uma das principais conclusões de um estudo inédito apresentado pela Amcham Brasil, que compara dois cenários para o desenvolvimento da cadeia nacional de minerais críticos e terras raras até 2050. No primeiro, o Brasil mantém o perfil predominante de exportador de matérias-primas com baixo processamento interno. No segundo, amplia a participação de investimentos estrangeiros, fortalece a industrialização doméstica e passa a utilizar esses minerais como insumos em cadeias produtivas nacionais.
Os resultados mostram diferenças expressivas. Enquanto o cenário baseado principalmente na exportação gera impacto acumulado de R$ 128,7 bilhões sobre o Produto Interno Bruto (PIB) e aproximadamente 304 mil empregos, a estratégia que incorpora maior agregação de valor eleva esses números para R$ 192,1 bilhões e cerca de 750 mil postos de trabalho, respectivamente.
Segundo a Amcham, o Brasil reúne condições privilegiadas para ocupar posição estratégica nesse mercado. O estudo considera minerais como cobre, grafita, lítio, níquel e elementos de terras raras — insumos essenciais para baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, motores elétricos e equipamentos eletrônicos. A crescente demanda mundial por tecnologias de baixo carbono coloca esses recursos no centro das cadeias globais da transição energética.
Parte desse potencial decorre da posição geológica do país. O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais de grafita, níquel e terras raras e concentra importantes projetos minerais em estados como Pará, Goiás, Minas Gerais, Bahia e Piauí. Apesar dessa vantagem, o estudo destaca que a produção brasileira permanece concentrada nas etapas iniciais da cadeia, exportando grande parte dos minerais antes do processamento industrial.
Para Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil, ampliar a capacidade de atrair investimentos representa uma oportunidade de converter riqueza mineral em desenvolvimento econômico e tecnológico. Segundo ele, a expansão do processamento doméstico amplia os benefícios para além dos estados mineradores, fortalecendo também regiões com maior parque industrial e aumentando a inserção brasileira nas cadeias globais de tecnologia.
Os impactos projetados vão além da mineração. No cenário de maior agregação de valor, a indústria de transformação praticamente triplica seu crescimento em relação ao cenário baseado apenas na exportação, enquanto setores como construção civil, fabricação de máquinas, equipamentos elétricos, automóveis e equipamentos mecânicos também registram expansão significativa. Estados tradicionalmente industriais, como São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais, aparecem entre os principais beneficiados pelo efeito de encadeamento produtivo.
O estudo também reforça que aproveitar esse potencial dependerá de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da cadeia nacional de minerais críticos. Entre as prioridades apontadas estão a aprovação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, a ampliação dos mecanismos de financiamento, a atração de investimentos de longo prazo e o incentivo ao processamento industrial dentro do território brasileiro. A avaliação é de que a combinação entre reservas minerais abundantes e maior industrialização poderá posicionar o Brasil como fornecedor de tecnologias estratégicas para a economia de baixo carbono, e não apenas como exportador de commodities minerais.





