Agro precisa agregar valor, participar da construção das regras internacionais e superar gargalos de infraestrutura para avançar
O Brasil construiu nas últimas décadas uma das maiores plataformas de produção agropecuária do mundo. O desafio que se desenha agora está menos relacionado à capacidade de colocar mais toneladas no mercado e mais à forma como o País transforma essa produção em renda, produtos industrializados e influência nas decisões que determinam o acesso aos grandes consumidores globais.
Essa nova fronteira envolve questões que começam dentro da propriedade, passam por armazenagem, irrigação e agroindustrialização e chegam às mesas internacionais onde são estabelecidas regras sanitárias, ambientais e comerciais. Quatro lideranças presentes no 7º Fórum do Agronegócio, realizado hoje em Londrina (PR) pela Sociedade Rural do Paraná, convergem em um ponto: competitividade deixou de ser apenas sinônimo de eficiência produtiva.
Para Patrícia Arantes, diretora executiva da Sociedade Rural Brasileira, o País precisa coordenar melhor as estratégias privada e pública. “A produção resolve a oferta, mas a regra resolve o mercado”, resume. A especialista destaca que requisitos sanitários, ambientais, tarifários e de rastreabilidade passaram a determinar a capacidade brasileira de acessar mercados como China, Estados Unidos e União Europeia.
Para o vice-presidente da Sociedade Rural do Paraná, Antônio Sampaio, aumentar a produção paranaense passa sobretudo pelo ganho de produtividade e pela transformação industrial, já que há pouco espaço para expansão da área agrícola. “Vender soja in natura é um absurdo”, afirma. A alternativa, em sua avaliação, está em produtos como óleo, farelo e proteínas processadas, capazes de capturar mais valor antes da exportação.
O governador Ratinho Júnior cita a proteína animal como exemplo dessa mudança. Segundo ele, cortes processados, embalados, congelados e identificados por marcas paranaenses chegam hoje a 170 países. “Nós saímos do extrativismo agrícola […] e passamos a fazer disso uma grande indústria do agronegócio”, afirma.
O avanço industrial, porém, exige capital e infraestrutura. Ratinho aponta armazenagem e irrigação entre os gargalos brasileiros e defende políticas públicas capazes de ampliar os investimentos. No Paraná, cita o Fiagro como instrumento de redução do custo financeiro para projetos como aviários, silos e pivôs de irrigação.
A armazenagem permitiria ao produtor maior liberdade para decidir quando comercializar a safra. Já a irrigação funcionaria como proteção contra oscilações climáticas. O governador lembra que a crise hídrica de 2021 e 2022 provocou, segundo seus números, perdas superiores a R$ 20 bilhões no Estado.
Presença onde as regras são feitas
A estratégia se completa fora do País. Roberto Araújo, gerente de Relações Institucionais da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), considera insuficiente ser competitivo apenas “da porteira para dentro”. Para ele, governo e empresas precisam participar dos fóruns internacionais e ampliar a diplomacia regulatória.
O objetivo é transformar a força brasileira em capacidade de influenciar agendas relacionadas a comércio, sustentabilidade, segurança alimentar, energia e descarbonização. “A competitividade não deve ser somente um fim, ela é um meio”, afirma Araújo.
Os quatro olhares apontam, assim, para uma mesma direção: o próximo ciclo do agro brasileiro dependerá não apenas de quanto o País consegue produzir, mas de quanto valor consegue reter, como protege sua produção e qual espaço ocupa na definição das regras do comércio mundial.


