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Milho avança e pressiona domínio da cana no etanol

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Expansão da bioenergia muda preços, demanda e logística, e transforma o milho em ativo estratégico da economia

 

O milho brasileiro deixou de ser apenas um coadjuvante na produção agrícola para assumir papel central na matriz energética do país. Impulsionado pela expansão do etanol, o grão passa a redefinir a dinâmica de mercado, alterando fluxos de demanda, preços e investimentos em toda a cadeia produtiva. A análise é de Eric Emiliano, diretor da L.E.K. Consulting, que aponta o movimento como uma mudança estrutural no agronegócio nacional.

“Estamos diante de uma transformação relevante na dinâmica do milho no Brasil, que deixa de ser predominantemente exportador para ganhar protagonismo no consumo interno, especialmente com o avanço do etanol”, afirma Emiliano.

Historicamente associado à ração animal e às exportações, o milho ganha nova relevância com o avanço das usinas de bioenergia. O modelo de dupla safra — soja no verão e milho na safrinha — criou uma oferta abundante e competitiva, viabilizando a operação contínua de destilarias ao longo do ano. Esse arranjo elevou a eficiência dos ativos industriais e ampliou a previsibilidade de fornecimento.

A transformação já se reflete no consumo interno. Em 2024, entre 65% e 70% da produção nacional foi absorvida domesticamente, principalmente pela ração e pelo etanol, que se consolida como o destino de crescimento mais acelerado. A tendência é de avanço contínuo: a participação do etanol pode se aproximar de 30% do consumo até 2030, partindo de níveis praticamente nulos há uma década.

“Esse crescimento altera o equilíbrio do mercado, criando novas referências de preço e reduzindo a dependência da exportação como principal direcionador da formação de valor”, destaca Emiliano.

Com maior absorção interna, os volumes exportados tendem a se estabilizar, mesmo com aumento da produção. Ao mesmo tempo, a presença das usinas nas regiões produtoras cria pisos regionais de preços, fortalecendo a renda do produtor e ampliando a previsibilidade do setor.

A expansão também impulsiona investimentos em infraestrutura. Até 2025, o Brasil contará com 29 usinas de etanol de milho em operação e outras 16 em construção, concentradas principalmente no Centro-Oeste, consolidando um novo eixo de desenvolvimento no interior do país.

Além do impacto econômico, o etanol de milho reforça a agenda ambiental. “O modelo brasileiro combina eficiência produtiva com menor intensidade de carbono, especialmente quando integrado a biomassa, biogás e geração de CBIOs”, ressalta Emiliano.

Apesar do avanço, desafios permanecem, como custos sensíveis a insumos e volatilidade de preços. Ainda assim, o movimento é claro: o milho passa a conectar alimento, energia e indústria, consolidando-se como um dos principais vetores de transformação do agronegócio brasileiro.

Milho e soja redesenham a energia do agro

A expansão do etanol de milho não ocorre de forma isolada. Em paralelo, o biodiesel de soja avança como outro eixo estruturante da transição energética brasileira, criando uma nova lógica de demanda interna para duas das principais commodities do país.

No caso da soja, o crescimento do biodiesel resolve um gargalo histórico da cadeia. Cerca de 80% da soja processada vira farelo e apenas 20% se transforma em óleo — e é justamente esse óleo que ganha protagonismo com a mistura obrigatória ao diesel. A partir de 2025, o Brasil passa a operar com B15, avançando gradualmente até B20 em 2030, o que cria uma demanda crescente e previsível.

“O biodiesel surgiu como a peça que faltava […] ele absorve o excedente de óleo, viabiliza mais esmagamento e gera mais farelo para a cadeia de proteína animal”, aponta a análise do setor. O impacto é direto: o esmagamento de soja deve atingir 61,8 milhões de toneladas em 2026, impulsionado por margens industriais mais atrativas. A cada ponto percentual na mistura, a cadeia projeta expansão relevante de empregos e efeito multiplicador na economia.

Ao mesmo tempo, o etanol de milho altera o mercado do grão ao ampliar o consumo interno e reduzir a dependência das exportações. Juntas, as duas cadeias criam um novo padrão: commodities agrícolas passam a ser também ativos energéticos. Na prática, isso significa que preços deixam de responder apenas ao mercado internacional e passam a refletir também variáveis domésticas, como demanda por combustíveis e políticas públicas.

Para o produtor, o movimento abre novas possibilidades. “O Brasil está deixando de ser apenas o ‘celeiro do mundo’ para se tornar a sua ‘usina verde’”, destaca a análise. O desafio agora está na escala. Para sustentar o avanço do biodiesel até 2030, o setor projeta investimentos de R$ 52,5 bilhões em novas usinas e capacidade de esmagamento — enquanto o etanol de milho segue expandindo infraestrutura no Centro-Oeste.

No fim, milho e soja deixam de competir por área ou mercado e passam a operar como pilares complementares de uma nova matriz produtiva, que conecta alimento, energia e indústria dentro do próprio país.

“Estamos em um ciclo onde quem estiver tecnicamente amparado e bem informado terá condições de superar as turbulências. É hora de investir em conhecimento e proximidade com quem conhece o solo, a planta e o mercado”, complementa Leonardo Sodré, CEO do Grupo GIROAgro.

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