Mesmo com safra robusta, indústria enfrenta retração em cenário de inadimplência e custos elevados
A deterioração das margens no campo começou a produzir reflexos cada vez mais visíveis também na cadeia de insumos agrícolas. Em um ambiente marcado por juros elevados, crédito mais restrito, inadimplência crescente e dificuldades de repasse de custos, segmentos ligados à agricultura de alta tecnologia encerraram 2025 em desaceleração, apesar da manutenção da demanda por soluções voltadas à produtividade.
O mercado brasileiro de biofertilizantes e fertilizantes especiais, que fechou 2025 com faturamento de R$ 25,4 bilhões, resultado 5,5% inferior ao registrado no ano anterior. Os dados fazem parte do relatório de inteligência de mercado divulgado pela Abisolo no Anuário Brasileiro de Tecnologia para Produção Vegetal 2026, apresentado pela entidade numa entrevista coletiva online, na tarde de hoje. O documento é elaborado com base em informações e opiniões de industriais do setor de fertilizantes especiais filiados à associação.
Embora a safra agrícola brasileira tenha mantido volumes robustos, a conjuntura econômica pressionou fortemente os produtores rurais ao longo do ano. O aumento dos custos de produção, combinado à limitação do crédito e à redução da rentabilidade em diversas culturas, alterou o comportamento de compra dentro das propriedades rurais.
Segundo Roberto Levrero, presidente do Conselho Deliberativo da Abisolo, o cenário impactou diretamente toda a cadeia de insumos. “O ano de 2025 foi marcado por um ambiente extremamente desafiador para o produtor rural e, consequentemente, para toda a cadeia de insumos. A complexidade desses fatores levou o agricultor a postergar decisões, pressionar por menores preços de insumos e buscar maior cautela na gestão da produção”, afirma Levrero.
De acordo com o levantamento, os segmentos considerados mais “comoditizados” sofreram maior pressão sobre preços e margens, enquanto tecnologias de maior valor agregado apresentaram comportamento mais resiliente, sustentadas pela busca crescente por eficiência produtiva e mitigação de riscos agronômicos. Mesmo com a retração do faturamento, o setor praticamente não registrou redução significativa nos volumes comercializados, o que reforça a manutenção da relevância dessas tecnologias no manejo agrícola brasileiro.
Apesar dos resultados negativos de 2025 e de um início de 2026 considerado desafiador, a entidade está otimista para este ano. A expectativa é de um crescimento de 10% a 11% no faturamento do setor, segundo Alexandre D’Angelo, diretor de Operações da Abisolo. O comportamento do setor este ano poderá ser avaliado com mais segurança em julho, período em que os produtores definem as estratégias para a próxima safra.
Entre os destaques positivos do levantamento aparecem os biofertilizantes, que avançaram 76,7% em 2025, impulsionados pelo aumento dos registros de produtos junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), pela ampliação da adoção no campo e pela entrada de novas empresas no segmento. Já os fertilizantes orgânicos cresceram 58,5%, favorecidos pela recuperação dos preços médios de venda.
A soja ampliou ainda mais sua liderança entre as culturas consumidoras desses insumos, elevando participação de 44,1% para 48,6% das vendas do setor em 2025. Minas Gerais permaneceu como principal estado consumidor, respondendo sozinho por 22% do faturamento nacional. “A conjuntura econômica pressionou toda a cadeia. O setor segue demonstrando capacidade de adaptação e forte compromisso com inovação e sustentabilidade. O produtor continua entendendo que produtividade será cada vez mais decisiva para preservar rentabilidade”, acrescenta Levrero.
O relatório também apontou avanço de 19,4% no segmento de condicionadores de solo de base orgânica, que alcançou faturamento de R$ 154 milhões. Produtos classificados como “Classe F” lideraram o crescimento, com expansão de 71,4% frente a 2024. Outro destaque veio do mercado de substratos para plantas, que encerrou 2025 com faturamento de R$ 517,2 milhões, crescimento de 22,8% na comparação anual. O avanço foi puxado principalmente pela elevação dos preços decorrente da escassez de matérias-primas importadas. Culturas como café e flores ampliaram o uso desses produtos, enquanto segmentos ligados ao setor florestal e à cana-de-açúcar apresentaram retração.
Para 2026, a expectativa da indústria ainda é de manutenção da pressão sobre custos, especialmente em função da dependência de insumos importados e do ambiente econômico instável. Ainda assim, a Abisolo avalia que tecnologias ligadas à produtividade, eficiência agronômica e sustentabilidade continuarão ocupando posição estratégica dentro da agricultura brasileira. “O setor continua investindo em pesquisa, desenvolvimento e inovação porque entende que produtividade, eficiência e sustentabilidade serão fatores cada vez mais estratégicos para a agricultura brasileira. Mesmo em um cenário desafiador, a demanda por tecnologias de alta performance permanece relevante”, conclui Levrero.




