Atualização do Zarc altera janelas de cultivo, incorpora novos dados e incentiva boas práticas agrícolas
O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), uma das principais ferramentas de gestão de risco da agricultura brasileira, chega aos 30 anos incorporando avanços que ampliam a precisão das recomendações de plantio e fortalecem a tomada de decisão no campo. As atualizações mais recentes resultaram em mudanças nas janelas de cultivo de 3.285 municípios brasileiros, refletindo tanto a evolução das bases de dados quanto os aprimoramentos metodológicos desenvolvidos pela Embrapa.
A revisão utilizou uma nova série climatológica, atualizada de 1984-2013 para 1993-2022, incorporando informações mais recentes sobre chuvas, temperaturas e comportamento climático. O resultado foi a ampliação das janelas recomendadas de cultivo em 1.811 municípios e a redução em outros 1.474, alterando o planejamento agrícola em diferentes regiões do País.
As mudanças ocorreram de forma distinta entre as regiões brasileiras. Enquanto parte do Norte e do Sul ganhou períodos mais amplos para plantio, áreas do Sudeste e regiões da Zona da Mata e Semiárido nordestino registraram redução das janelas, principalmente em razão do atraso no início das chuvas e das temperaturas mais elevadas observadas nos meses que antecedem a safra. Segundo Eduardo Monteiro, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e coordenador da Rede Zarc Embrapa de Pesquisa, alguns efeitos foram positivos para determinadas culturas. “Um exemplo disso foi a diminuição dos riscos de geadas em estados do Sul, resultando em possibilidade de plantio antecipado em alguns municípios”, destaca.

Outra transformação importante está relacionada à qualidade dos dados utilizados. A base climatológica passou de 3.500 para 4.200 séries históricas, incluindo informações geradas por satélites e modelos meteorológicos por meio das chamadas estações meteorológicas virtuais. “Esse não é um estudo sobre mudanças climáticas. O objetivo principal foi avaliar os impactos da alteração de base de dados no Zarc, uma vez que nossa prioridade não é avaliar mudança climática, mas sim garantir a melhor base possível para as avaliações de risco do Zoneamento”, explica Monteiro.
Os avanços também chegaram à caracterização dos solos. O sistema deixou de considerar apenas a textura — arenosa, média ou argilosa — e passou a avaliar a disponibilidade real de água no perfil do solo. A nova metodologia utiliza seis classes de água disponível, permitindo análises mais aderentes às condições encontradas nas propriedades rurais. Para José Renato Bouças Farias, pesquisador da Embrapa Soja, o aperfeiçoamento representa um salto na qualidade das recomendações. “Essa nova metodologia do Zarc aumentou a qualidade das informações disponíveis para subsidiar a gestão de riscos e o planejamento da produção de soja”, afirma.
Outra inovação é o Zarc Níveis de Manejo (ZarcNM), que incorpora práticas agronômicas adotadas pelo produtor na avaliação dos riscos climáticos. O sistema considera fatores como cobertura do solo, diversidade de cultivos, teor de cálcio, saturação por bases e histórico de revolvimento da área. A proposta já está sendo utilizada em projetos-piloto vinculados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), oferecendo percentuais diferenciados de apoio financeiro para produtores que adotam melhores práticas de manejo.
Os resultados econômicos ajudam a dimensionar a relevância da ferramenta. Segundo o Balanço Social da Embrapa, o Zarc gerou retorno estimado de R$ 3,9 bilhões para a sociedade em 2025, por meio da redução de perdas agrícolas, diminuição de replantios e economia com indenizações de seguros. Atualmente, além de orientar seguradoras e programas governamentais, o zoneamento tornou-se referência obrigatória para operações de crédito rural vinculadas ao Plano Safra, consolidando seu papel como uma das principais ferramentas de mitigação de riscos da agricultura brasileira.




