Cepea aponta maior desvalorização do suíno vivo para o período desde 2002, mesmo com embarques recordes da carne brasileira
O mercado brasileiro de suínos entrou em 2026 sob um dos cenários mais desafiadores das últimas décadas. Mesmo com exportações em níveis recordes e forte demanda internacional pela proteína brasileira, o setor viu os preços despencarem no mercado doméstico, pressionados pelo consumo enfraquecido e pela dificuldade de absorção da oferta interna.
Levantamento do Cepea/Esalq-USP mostra que a desvalorização do suíno vivo em abril foi a mais intensa para o período desde o início da série histórica do Centro de Pesquisas, em 2002. Na praça SP-5 — que engloba Bragança Paulista, Campinas, Piracicaba, São Paulo e Sorocaba — o animal acumulou queda real superior a 30% em 2026, considerando a comparação entre abril e dezembro do ano passado.
Em abril, o suíno vivo posto na indústria fechou com média de R$ 5,91/kg na SP-5, recuo de 14,6% frente a março. No Oeste Catarinense, outra importante referência do setor, a baixa foi ainda mais intensa, chegando a 16,4%, com média de R$ 5,71/kg.
O movimento também atingiu o atacado. A carcaça especial suína negociada na Grande São Paulo registrou média de R$ 9,01/kg em abril, desvalorização de 10,4% frente ao mês anterior. Em termos reais, o valor foi o menor desde fevereiro de 2019.
O cenário chamou atenção porque ocorreu justamente em meio a um desempenho histórico das exportações brasileiras. Segundo dados da Secex analisados pelo Cepea, o Brasil embarcou 138,3 mil toneladas de carne suína em abril, maior volume já registrado para o mês desde o início da série histórica, em 1997.
O Japão apareceu como um dos destaques da demanda internacional. As compras japonesas acumuladas de janeiro a abril cresceram 75% frente ao mesmo período de 2025, fazendo o país superar parceiros tradicionais e se consolidar como o segundo principal destino da carne suína brasileira.
Mesmo assim, os embarques representaram cerca de 26% da produção nacional em abril, percentual insuficiente para sustentar os preços internos diante do enfraquecimento do consumo doméstico.
Além da queda nas cotações, o produtor paulista perdeu poder de compra frente aos principais insumos da atividade. Em abril, a relação de troca mostrou que, com a venda de um quilo de suíno vivo, o produtor conseguia adquirir apenas 3,39 quilos de farelo de soja ou 5,22 quilos de milho — os piores resultados para o período em anos recentes.
Apesar da forte retração observada em abril, agentes consultados pelo Cepea esperam estabilidade ou leves ajustes positivos nos preços ao longo de maio, impulsionados pelo recebimento de salários, Dia das Mães e redução do efeito dos feriados sobre o consumo.
O cenário reforça um desafio crescente para a cadeia brasileira: mesmo consolidado como potência exportadora, o setor segue altamente dependente da capacidade de reação do mercado doméstico para sustentar margens e equilibrar a rentabilidade da produção.




