Recomendações da Embrapa mostram que adaptação climática precisa se transformar em estratégia permanente de produção e gestão
O El Niño previsto para a safra 2026/27 voltou a colocar o risco climático no radar da agropecuária brasileira. Mas a resposta proposta pela Embrapa vai além de enfrentar os efeitos de um fenômeno específico. A instituição reuniu 163 medidas para reduzir riscos de perdas no campo e defende uma mudança mais profunda: transformar prevenção, preparação e adaptação em componentes permanentes da gestão da atividade rural.
As recomendações foram entregues ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e elaboradas no âmbito do Grupo de Trabalho sobre El Niño, com participação de especialistas da Embrapa e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Cerca de 50 profissionais da empresa de pesquisa trabalharam na construção do documento.
A preocupação imediata é a safra que se aproxima. Para 2026/27, as projeções apontam maior probabilidade de precipitações abaixo da média em áreas do Centro-Norte e acima da média na região Sul. Isso, porém, não significa que os impactos estejam previamente determinados: intensidade, localização e consequências dependem de cada região, cultura e sistema produtivo.
A análise considera uma combinação ampla de ameaças: atraso ou irregularidade no início da estação chuvosa, déficit hídrico prolongado, temperaturas elevadas, excesso de precipitação e tempestades severas. Os possíveis efeitos são avaliados em grãos e fibras, frutas, florestas plantadas, hortaliças, pastagens e pecuária, culturas industriais e aquicultura.
Das 163 recomendações, 14 podem ser adotadas transversalmente, independentemente da atividade. Entre elas estão acompanhar previsões meteorológicas, utilizar dados locais e o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), diversificar espacial e temporalmente a produção, avaliar riscos continuamente e preparar planos de contingência.
A lista mostra também que adaptação climática não é apenas uma questão agronômica. Manutenção da infraestrutura da propriedade, dimensionamento da capacidade operacional, registro dos eventos climáticos e seus impactos, formação de reservas financeiras, seguro rural e capacitação das equipes aparecem entre as recomendações. Sistemas integrados, como ILP e ILPF, também integram esse conjunto.
Cada atividade exige sua resposta
Outras 139 medidas são específicas para diferentes cadeias produtivas. Elas envolvem decisões como manejo do solo, escolha de cultivares, planejamento das operações, drenagem, irrigação e investimento em estruturas de proteção. O documento organiza as ações segundo o risco enfrentado, o prazo de implementação e as condições necessárias para adoção.
As dez recomendações restantes dependem principalmente de políticas públicas e ações institucionais. Incluem aperfeiçoamento do Zarc, financiamento para adaptação climática, seguro rural, assistência técnica, pesquisa, monitoramento agrometeorológico, gestão de recursos hídricos e prevenção de incêndios.
A mensagem central, portanto, ultrapassa o El Niño. O objetivo é substituir uma lógica em que providências são tomadas depois da crise por outra baseada em antecipar, preparar, adaptar, monitorar e aprender. E há ainda um obstáculo essencial: levar as tecnologias e recomendações já disponíveis até quem toma as decisões diariamente na propriedade rural.



