Sistema Campo Limpo amplia uso do coprocessamento para dar destino sustentável a resíduos sem viabilidade de reciclagem
O Brasil construiu uma das estruturas de logística reversa mais reconhecidas do mundo no setor agropecuário. O desafio agora não é apenas ampliar a reciclagem, mas encontrar soluções viáveis para resíduos que ainda permanecem fora desse processo. Em uma agenda cada vez mais ligada à economia circular, a discussão passa a envolver alternativas capazes de reduzir desperdícios, recuperar valor energético e diminuir a dependência de matérias-primas e combustíveis fósseis.
O coprocessamento vem ganhando espaço dentro do Sistema Campo Limpo, programa coordenado pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV). No ano passado, 594 toneladas de materiais foram destinadas a esse modelo de reaproveitamento, por meio de parceria com a Fundação Proamb, em Bento Gonçalves (RS).
A tecnologia consiste na transformação de resíduos sólidos em combustível derivado de resíduos (CDR), utilizado em fornos industriais da cadeia cimenteira. O processo permite aproveitar materiais que atualmente não possuem viabilidade técnica ou econômica para reciclagem convencional, reduzindo a necessidade de destinação por incineração e diminuindo o consumo de combustíveis fósseis.
Segundo Marcelo Okamura, diretor-presidente do inpEV, a iniciativa amplia as possibilidades de destinação ambientalmente adequada dentro do sistema de logística reversa. “É utilizado em cimenteiras em substituição parcial ao coque de petróleo nos fornos industriais. A tecnologia permite que resíduos sem viabilidade atual de reciclagem sejam aproveitados energeticamente de forma mais sustentável, contribuindo para a redução do uso de combustíveis fósseis e, consequentemente, das emissões de gases de efeito estufa”, afirma Okamura.
Além da recuperação energética, o coprocessamento também permite o aproveitamento do potencial mineral de parte dos resíduos, que passa a integrar a composição do cimento produzido pelas indústrias. Essa característica reforça seu alinhamento aos princípios da economia circular, reduzindo a necessidade de extração de novos recursos naturais.
Para Diego Tarragó, consultor de Engenharia e Novos Negócios da Fundação Proamb, o avanço da iniciativa representa uma mudança importante na forma como o setor encara a gestão de resíduos. “A iniciativa do inpEV de ampliar o coprocessamento representa uma evolução concreta na forma como o setor olha para a destinação de resíduos. Essa parceria reforça nosso compromisso com a inovação e com soluções que aproximem o agronegócio de modelos mais modernos de gestão de resíduos”, destaca Tarragó.
Atualmente, o Sistema Campo Limpo destina corretamente 100% das embalagens devolvidas pelos agricultores. Desse total, 92% seguem para reciclagem, índice que coloca o Brasil entre as principais referências mundiais em logística reversa de embalagens agrícolas. Desde o início da operação, em 2002, mais de 900 mil toneladas de embalagens vazias e sobras pós-consumo receberam destinação ambientalmente adequada.
Segundo Okamura, o objetivo é ampliar continuamente o número de alternativas tecnológicas disponíveis. “Trabalhamos continuamente para ampliar alternativas tecnológicas e operacionais que permitam reduzir, gradativamente, a proporção de resíduos destinados à incineração”, ressalta.
O avanço do coprocessamento mostra que a próxima etapa da logística reversa no agronegócio não será apenas reciclar mais, mas aproveitar melhor aquilo que ainda não consegue retornar à cadeia produtiva.




