Vendas ao bloco caem mais de 30% em março, mas trimestre segue positivo, com destaque para carne bovina e café nas exportações brasileiras
O agravamento das tensões no Oriente Médio está redesenhando o fluxo das exportações brasileiras, com impacto direto sobre mercados estratégicos para o agronegócio. Em março, as vendas para os países do Golfo Pérsico recuaram de forma expressiva, interrompendo um início de ano positivo e acendendo o alerta para possíveis efeitos mais amplos nos próximos meses.
Segundo dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, os embarques para o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) — que reúne Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Bahrein e Omã — somaram US$ 537,11 milhões no mês, queda de 31,47% na comparação anual. O movimento reflete diretamente o fechamento do Estreito de Ormuz, ponto-chave para o transporte marítimo global, que elevou custos logísticos e dificultou o acesso a portos estratégicos.
Apesar do recuo pontual, o desempenho no acumulado do ano ainda se mantém positivo. De janeiro a março, as exportações ao bloco cresceram 8,14%, alcançando US$ 2,41 bilhões. Considerando o conjunto dos países árabes, o avanço foi de 3,90%, totalizando US$ 5,13 bilhões.
O agronegócio, responsável por cerca de 75% das vendas ao CCG, também apresentou comportamento misto. No mês, houve retração de 25,38%, mas o trimestre acumula alta de 6,8%, somando US$ 1,44 bilhão. Entre os principais produtos, o frango recuou 13,80% em março, para US$ 185,50 milhões, enquanto o açúcar caiu 43,37%, para US$ 54,07 milhões.
Na contramão, a carne bovina avançou 23,87% no mês, atingindo US$ 47,75 milhões, e acumula alta expressiva de 65,29% no trimestre, com US$ 194,56 milhões. O café também se destacou, com crescimento de 34,24% em março e de 64,3% no acumulado do ano.
O milho apresentou o movimento mais extremo: praticamente deixou de ser embarcado ao bloco em março, com queda de 99,96%, embora o recuo no trimestre ainda seja mais limitado, de 5,8%.
Para Mohamad Mourad, secretário-geral da Câmara Árabe-Brasileira, o impacto ainda é pontual, mas exige atenção. “As vendas para o CCG […] vinham em alta em janeiro e fevereiro […] O recuo de março decorre do conflito e, por ora, não afeta o acumulado, mas ainda pode trazer impactos”, afirma.
Outro efeito relevante aparece na importação de insumos. As compras brasileiras de fertilizantes da região caíram 51,35% no trimestre, um ponto sensível para o agro, já que o Golfo responde por cerca de 10% do abastecimento externo.
O cenário indica que, embora o primeiro impacto esteja concentrado na logística, a continuidade do conflito pode pressionar tanto as exportações quanto os custos de produção, ampliando a exposição do agronegócio brasileiro às oscilações geopolíticas globais.




