Pesquisadora da Embrapa Soja Mariangela Hungria é listada pela revista TIME entre as 100 mais influentes do planeta por avanços em insumos biológicos e sustentabilidade
A ciência brasileira ganhou destaque no cenário internacional com a inclusão da pesquisadora Mariangela Hungria na lista TIME 100 de 2026, que reúne as personalidades mais influentes do mundo. O reconhecimento evidencia o peso crescente da inovação no agronegócio, especialmente no desenvolvimento de soluções sustentáveis para a produção de alimentos.
Pesquisadora da Embrapa Soja, Hungria construiu uma trajetória marcada por avanços no uso de insumos biológicos, com impacto direto na produtividade agrícola e na redução da dependência de fertilizantes químicos. Ao comentar a conquista, destacou o significado coletivo do reconhecimento. “Estamos falando de um reconhecimento das pessoas mais influentes do mundo”, afirmou.
Segundo ela, o destaque internacional reflete não apenas sua carreira, mas o papel da pesquisa brasileira. “É um grande orgulho pela pesquisa brasileira, principalmente por um tema tão relevante: o uso de biológicos substituindo produtos químicos”, explicou.
Entre suas principais contribuições está o avanço da fixação biológica de nitrogênio (FBN) na soja, tecnologia que permite elevar a produtividade sem a aplicação de fertilizantes nitrogenados. Estudos conduzidos pela pesquisadora mostram ganhos médios de 8% na produção, com adoção já presente em cerca de 85% da área cultivada com a cultura no país.
Outro destaque é a coinoculação, que combina diferentes microrganismos para potencializar o crescimento das plantas. Em pouco mais de uma década, essa técnica passou a ser utilizada em aproximadamente 35% das áreas de soja, contribuindo para ganhos produtivos e redução de custos.
O impacto econômico e ambiental dessas tecnologias é expressivo. Apenas em 2025, a substituição de fertilizantes nitrogenados por soluções biológicas gerou economia estimada em US$ 25 bilhões, além de evitar a emissão de mais de 230 milhões de toneladas de CO₂ equivalente.
Para Hungria, o reconhecimento também sinaliza uma mudança global de paradigma. “Isso mostra que o mundo considera importante produzir alimentos que promovam a saúde do solo e das pessoas […] dentro do conceito de saúde única”, afirma.
Com impacto científico, econômico e ambiental, a trajetória da pesquisadora reforça o protagonismo do Brasil na construção de uma agricultura mais produtiva e sustentável.
A cientista que ajudou a transformar o agro
A história de Mariangela Hungria começa com curiosidade. Ainda criança, fascinada pelo funcionamento da vida, decidiu que queria entender o invisível — os microrganismos — mas não no corpo humano, e sim no solo, onde nasce a produção de alimentos. Esse interesse moldou uma trajetória que, décadas depois, ajudaria a transformar a agricultura brasileira.
Desde que ingressou na Embrapa, em 1982, construiu uma carreira guiada pela ciência e pela busca por soluções que tornassem a produção mais eficiente e sustentável. Ao longo desse caminho, desenvolveu tecnologias que reduziram a dependência de fertilizantes químicos e ampliaram a produtividade no campo, impactando milhões de hectares no Brasil.
Seu trabalho atravessou gerações — mais de 200 alunos formados, centenas de publicações científicas e uma contribuição direta para práticas hoje amplamente adotadas pelos produtores. Mas, para a pesquisadora, o reconhecimento nunca foi individual. Sempre esteve ligado à força da ciência brasileira e ao trabalho coletivo construído dentro da pesquisa pública.
Os prêmios vieram como consequência. Do World Food Prize, considerado o “Nobel da Agricultura”, à presença entre os cientistas mais influentes do mundo, Mariangela acumulou distinções que refletem o alcance global de sua atuação.
A entrada na lista TIME 100 simboliza mais do que uma conquista pessoal. Representa uma mudança de percepção: a de que produzir mais, com menos impacto, deixou de ser uma alternativa e se tornou uma necessidade global. E, nesse movimento, a ciência brasileira — e o trabalho de Mariangela — passa a ocupar um lugar de protagonismo.




