Custos acumulam avanço em 2026 enquanto recuperação dos preços recebidos ainda não compensa perdas anteriores
A recuperação da rentabilidade no campo continua sendo um dos principais desafios enfrentados pelos produtores brasileiros em 2026. Mesmo diante de sinais pontuais de melhora em algumas commodities agropecuárias, a combinação entre custos elevados e preços ainda deprimidos tem mantido a margem de muitos sistemas produtivos sob pressão, especialmente em regiões fortemente dependentes da agricultura e da pecuária.
No Rio Grande do Sul, os números mais recentes apontam exatamente nessa direção. Levantamento divulgado pela Assessoria Econômica da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) mostra que os custos de produção voltaram a subir em abril, enquanto os preços recebidos pelos produtores permanecem abaixo dos níveis registrados há um ano.
Segundo o relatório, o Índice de Inflação dos Custos de Produção (IICP) avançou 1,55% no mês, acumulando alta de 4,90% em 2026 e de 2,37% nos últimos 12 meses. O principal fator de pressão foi o mercado de fertilizantes, que registrou aumento de 8% em abril, influenciado por incertezas internacionais e pela valorização das matérias-primas utilizadas na fabricação dos insumos.
A elevação reforça uma tendência observada desde o início do ano. Após um período marcado por deflação em diversos componentes dos custos agropecuários ao longo de 2025, os indicadores voltaram a apresentar trajetória ascendente, elevando a preocupação dos produtores em relação ao planejamento da próxima safra.
No lado da receita, o cenário mostra alguma melhora, mas ainda distante de uma recuperação plena. O Índice de Inflação dos Preços Recebidos (IIPR) registrou alta de 0,81% em abril, impulsionado principalmente pelo desempenho do leite, do arroz, do trigo e do boi gordo. Apesar disso, o indicador segue acumulando retração de 9,19% nos últimos 12 meses. Em outras palavras, o produtor rural continua recebendo menos hoje do que recebia há um ano pela comercialização de sua produção.
Entre os fatores que contribuíram para a valorização recente estão a menor oferta de arroz e leite, a entressafra do trigo e a mudança do ciclo pecuário, que tradicionalmente favorece a recuperação dos preços do boi gordo após períodos de maior volume de abates.
Um dos aspectos mais relevantes do levantamento está na comparação entre os preços pagos ao produtor e aqueles percebidos pelo consumidor final. Enquanto o índice de preços recebidos acumula queda de 9,19% em 12 meses, o IPCA de Alimentos e Bebidas registra alta de 2,69% no mesmo período. Já a inflação oficial do país alcança 4,39%.
Os dados reforçam uma discussão recorrente dentro do agronegócio: a de que o aumento do preço dos alimentos nas prateleiras nem sempre está relacionado ao valor recebido pelo produtor rural. Custos logísticos, processamento industrial, distribuição, varejo e fatores macroeconômicos como juros e câmbio exercem influência significativa na formação dos preços ao consumidor.
O resultado é um cenário que evidencia o descompasso entre campo e mercado. Enquanto o consumidor continua pagando mais pelos alimentos, muitos produtores ainda enfrentam dificuldades para recompor margens e recuperar a renda perdida ao longo dos últimos ciclos produtivos.




