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União e tradição: Cooperativas também fazem cachaça

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Coopama e CPC-ES mostram que a união de produtores pode fortalecer a qualidade, o mercado e a identidade da bebida mais emblemática do país

A cachaça é um dos símbolos mais autênticos do Brasil — uma bebida que carrega, junto com o aroma da cana e o sabor do tempo, séculos de história, resistência e cultura. Ainda assim, entre milhares de produtores artesanais espalhados pelo país, apenas um grupo pequeno atua de forma cooperada, em estruturas organizadas que combinam tradição, qualidade e gestão coletiva. Entre essas raras exceções estão a Coopama, em Abaíra (BA), e a Cooperativa Mista de Produção e Comercialização do Estado do Espírito Santo (CPC-ES), em Águia Branca (ES). Ambas podem ser consideradas referências silenciosas de um cooperativismo que sobrevive em meio a um setor altamente fragmentado e, muitas vezes, solitário.

De acordo com levantamento recente sobre as cooperativas brasileiras com foco em cachaça, o país conta hoje com apenas seis organizações ativas. A maioria está em Minas Gerais, berço histórico da bebida, mas as experiências mais estruturadas vêm justamente da Bahia e do Espírito Santo, com a Coopama e a CPC-ES. Essas duas cooperativas representam não apenas a força econômica da produção local, mas também o esforço de centenas de pequenos produtores em preservar uma herança artesanal enquanto se adaptam às novas exigências de mercado e  sustentabilidade.

A Cooperativa dos Produtores de Aguardente da Microrregião de Abaíra (Coopama) nasceu em 1976, na Chapada Diamantina, com o propósito de melhorar a renda e a qualidade da produção regional. “Fundamos para unir os produtores e padronizar a cachaça. Hoje somos cerca de 120 cooperados, com quatro associações filiadas — de rapadura, açúcar mascavo, cana e cachaça”, conta Lucimério Oliveira de Almeida, diretor financeiro da entidade.

A região tem uma tradição de mais de 200 anos na produção de aguardente de cana, mas a estiagem recorrente reduziu a produtividade. Mesmo assim, a Coopama mantém um volume  expressivo: 10 milhões de litros por ano, com forte presença no mercado nacional e vendas regulares em Salvador, São Paulo e outras capitais. A cooperativa opera com marca própria – Cachaça Abaíra, reconhecida pelo sabor suave e pela padronização técnica.

“Todos os cooperados foram capacitados para produzir um único tipo de cachaça, mantendo a identidade e o padrão sensorial”, explica Lucimério. O processo inclui análise laboratorial de cada lote e acompanhamento técnico permanente. A produção contempla desde a cachaça prata e a envelhecida por dois anos, até rótulos especiais guardados por 15 anos em barris de carvalho, resultando em um produto de altíssimo valor agregado.

A cooperativa também tenta abrir espaço no mercado internacional. Em 2024, a Coopama enviou 1.900 garrafas para a França, e antes disso chegou a exportar um contêiner com 21 mil garrafas para a Itália. Apesar do potencial, a ausência de distribuidores fixos ainda é um gargalo. “Temos um bom produto e tradição, mas a comercialização é o ponto mais difícil. Buscamos um  distribuidor para ampliar o alcance da nossa marca”, diz o diretor.

Lucimério reconhece que, mesmo com a força da cachaça no Brasil, as cooperativas do setor são raras. “Na Bahia não conheço outra. Em Minas há algumas, mas também enfrentam dificuldades para funcionar plenamente. O cooperativismo na cachaça ainda engatinha”, resume.

RENASCIMENTO DA CACHAÇA CRIOULA
Enquanto Abaíra consolida um modelo cooperativo duradouro, no Espírito Santo a experiência é mais recente, mas igualmente inspiradora. A Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Estado do Espírito Santo (CPC-ES) reinaugurou em junho de 2025 sua agroindústria da Cachaça Crioula, localizada na comunidade de São José, em Águia Branca. O projeto marca a retomada da produção com apoio técnico do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).

O Incaper orientou os cooperados em um curso de boas práticas que abrangeu desde o cultivo da cana até o engarrafamento da bebida. Foram abordados temas como controle sanitário, rotulagem, rastreabilidade e gestão de qualidade — condições essenciais para o ingresso no mercado formal. “A experiência prática foi aliada ao conhecimento técnico, preparando a cooperativa para ampliar o acesso ao mercado”, destacou a extensionista Jozyellen Nunes da Costa, do Incaper.

A Cachaça Crioula se insere num contexto produtivo expressivo: o Espírito Santo é o terceiro maior produtor de cachaça do Brasil, com 81 estabelecimentos registrados, atrás apenas de Minas Gerais (501) e São Paulo (179). O Estado tem também a segunda maior densidade nacional de produtores, com um estabelecimento para cada 50 mil habitantes — evidência da força da  agricultura familiar capixaba e do potencial de crescimento de modelos cooperativos.

ENTRE A TRADIÇÃO E O FUTURO
As histórias de Abaíra e Águia Branca revelam que o cooperativismo é um caminho natural — mas ainda pouco explorado — para organizar pequenos produtores, elevar a qualidade e dar escala à cachaça artesanal. No país, predominam microalambiques familiares, muitos sem registro formal, que enfrentam entraves de crédito, certificação e distribuição.

Enquanto o Brasil mantém cerca de 1.200 estabelecimentos registrados como produtores de cachaça de alambique, apenas meia dúzia atua sob modelo cooperativo formal. Esses números  expõem um contraste entre o peso cultural e o potencial econômico do setor e a fragilidade de sua organização produtiva.

Para o pesquisador e extensionista Vinício Oliosi Favero, que acompanhou o trabalho da CPC-ES, o modelo cooperativo tem um papel estratégico: “A formalização coletiva ajuda o produtor a cumprir as exigências legais, agregar valor e acessar novos mercados. O cooperativismo é um instrumento de inclusão produtiva e de preservação da identidade regional.”

A Coopama e a CPC-ES provam que o futuro da cachaça pode ser tão sólido quanto suas raízes. Ambas unem o que há de mais importante nesse mercado: qualidade técnica, compromisso social e orgulho regional. Em comum, compartilham a crença de que cooperar é a forma mais justa e inteligente de manter viva uma tradição de séculos, agora preparada para conquistar também o mundo.

 


 

DIVERSIDADE E QUALIDADE CRESCEM. EXPORTAÇÃO RECUA

A cachaça — símbolo nacional e patrimônio cultural brasileiro — fechou 2024 com um retrato de expansão interna e desafios no mercado externo. O Anuário da Cachaça 2025, do Ministério da  Agricultura e Pecuária (MAPA), mostra crescimento no número de estabelecimentos, na produção declarada e na diversidade de produtos, mas revela também queda expressiva nas exportações.

O Brasil encerrou 2024 com 1.266 estabelecimentos elaboradores de cachaça, alta de 4% sobre 2023. É o terceiro ano consecutivo de expansão, acumulando crescimento de 35,4% desde 2021. Minas Gerais lidera com 501 cachaçarias — 39,6% do total — seguido por São Paulo (179) e Espírito Santo (81). O Ceará foi destaque no ano passado, com crescimento de 38,2% (13 novas fábricas), enquanto Amapá e Roraima seguem sem registros.

O Brasil possui 7.223 cachaças registradas — aumento de 20,4% em relação a 2023. Minas Gerais concentra 34,5% dos produtos. Apesar do crescimento dos registros, houve queda no número de marcas: de 10.526 em 2023 para 9.532 em 2024 (-9,4%). Sergipe lidera em média de marcas por estabelecimento (32 por produtor).

Depois de dois anos de recuperação, a exportação caiu em 2024. Foram embarcados 6,66 milhões de litros, queda de 22,7% frente a 2023. O valor recuou 28,1%, de US$ 20,2 milhões para US$  14,5 milhões. O Paraguai é o principal destino em volume (19,7%), e os Estados Unidos lideram em valor (US$ 3,5 milhões, 24,3% do total). Apesar da retração, a cachaça brasileira chega a 74  países.

O volume declarado de produção em 2024 atingiu 292,5 milhões de litros, crescimento de 29,6% em relação a 2023. O Sudeste responde por 59% da produção, mas foi a única região com queda (-2,7%). O Sul teve salto de 300%, e o Norte cresceu 134% (embora represente apenas 0,03% do total). A maior parte da cachaça (74,5%) foi produzida com cana crua, mas a produção com cana queimada cresceu 1.071% no ano.

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