Norma ISO 56001 ajuda empresas a abrir a “caixa preta” da inovação

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Plínio Pereira artigo Norma ISO 56001

A inovação é um investimento no futuro: empresas em geral têm o projeto de criar algo novo na esperança de que, uma vez que esse novo produto, serviço ou tecnologia surja, traga algum benefício, seja operacional, financeiro ou estratégico. De forma ideal, a inovação funciona como uma máquina: ideias e recursos entram de um lado, e de outro, novas criações saem.

A tal “máquina de inovação” é um dos processos mais importantes em qualquer empresa – afinal, a inovação possibilita que as organizações se mantenham relevantes e competitivas. Para que uma empresa sobreviva – ainda mais atualmente – a máquina da inovação deve ser alimentada constantemente.

O problema é que na maior parte das empresas a inovação é uma “caixa-preta”. Não é raro lançamentos serem adiados ou projetos parados no pipeline de desenvolvimento. A alta liderança tem dificuldade de ter relatórios precisos sobre o impacto comercial dos projetos de inovação – e muitas vezes os riscos também não são muito claros.

ISO 56001: abrindo a caixa da inovação – Publicada em 2024, a ISO 56001 é a norma internacional focada na inovação, com o objetivo de fornecer diretrizes e requisitos para que as organizações possam sistematizar e otimizar seus processos de inovação. A norma permite às empresas criar um ambiente propício para o desenvolvimento de novas ideias, otimizando recursos e reduzindo incertezas.

Derivada da ISO 56002, publicada em 2019 e que se concentra em fornecer boas práticas para ajudar empresas a serem eficazes em seus processos de inovação, a ISO 56001 tem a proposta de transformar a inovação em um processo gerenciável, que possa ser planejado, executado e monitorado, eliminando a dependência exclusiva de iniciativas isoladas ou de talentos individuais. Isso permite que empresas de diferentes setores adotem uma abordagem sistemática para gerar valor, independentemente do seu porte ou segmento de atuação.

No Brasil, onde a inovação ainda enfrenta barreiras estruturais e culturais, a implementação dessa norma pode impulsionar a adoção de um processo mais estruturado. Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) realizada em 2021 apontou que apenas uma em cada quatro empresas mantinha algum programa ou estratégia de inovação, sendo que 51% das indústrias não tinham um setor específico.

A falta de uma cultura de inovação nas empresas também reflete em como o Brasil é visto globalmente: o país está na 50º posição do Índice Global de Inovação (IGI), divulgado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) – em 2023, a posição do Brasil era 49º. A burocracia, a dificuldade de acesso a crédito e os entraves regulatórios são alguns dos fatores que dificultam a implementação de práticas inovadoras nas empresas brasileiras. Nesse contexto, a adoção da ISO 56001 pode proporcionar um direcionamento claro, permitindo que organizações superem essas barreiras e estabeleçam uma cultura de inovação mais robusta.

Implementação da norma – A implementação da ISO 56001 requer uma compreensão profunda dos seus princípios e requisitos. Primeiramente, a implementação da ISO 56001 exige um compromisso de toda a liderança da empresa. Diferente de normas que se concentram em processos técnicos específicos, essa diretriz exige um envolvimento amplo, em que a inovação deve ser compreendida como um componente estratégico do negócio. Isso significa que as empresas precisam investir não apenas em tecnologia, mas também em novas formas de pensar, atuar e se relacionar com o mercado. As metodologias tradicionais de gestão nem sempre são suficientes para suportar a velocidade das mudanças tecnológicas e de comportamento do consumidor, tornando a adaptação um elemento essencial.

A norma também estabelece a necessidade de se implementar um sistema de gestão da inovação, que deve ser integrado aos outros processos existentes na empresa, permitindo uma abordagem holística e mais estratégica. Outro ponto da ISO 56001 é seu foco na mitigação de riscos. Muitas empresas hesitam em investir em inovação devido ao receio de fracasso. No entanto, a norma traz uma abordagem baseada em aprendizado contínuo e gestão de incertezas, o que permite que os negócios experimentem novas ideias de forma estruturada, reduzindo o impacto de possíveis falhas.

A ISO também ajuda as empresas a implementar um processo de gestão do conhecimento – que geralmente é relegado ao status de projeto “secundário” dentro das organizações, quando existe. E é justamente a falta dessa sistematização que na indústria, por exemplo, tornou difícil a passagem de conhecimento dos técnicos mais antigos para as gerações mais novas. A implementação da ISO 56001 pode ajudar a superar esses desafios, ao estabelecer processos e ferramentas para a gestão do conhecimento, como bancos de dados, plataformas de colaboração e programas de treinamento contínuo.

A norma também destaca a importância da medição e avaliação do desempenho da inovação. A ISO 56001 oferece diretrizes para a definição de indicadores de desempenho, que podem incluir, por exemplo, o número de novos produtos ou serviços lançados, o tempo de desenvolvimento de novas soluções, o retorno sobre o investimento em inovação, entre outros. A adoção dessas métricas pode ajudar as empresas brasileiras a obter uma visão clara dos resultados de suas atividades de inovação e a identificar áreas de melhoria.

Pesquisa e desenvolvimento – O Brasil tem poucos programas de Pesquisa & Desenvolvimento, e muitos estão subutilizados, com uma baixa adesão por parte das empresas, o que faz com que o Brasil fique muito aquém de outros países quando se trata de investimentos em inovação, como a Alemanha e os Estados Unidos. A ISO 56001 pode ajudar a otimizar esses investimentos, garantindo que eles sejam aplicados de forma estratégica e direcionada para áreas com maior potencial de retorno. Isso pode ser particularmente vantajoso para empresas que operam em setores intensivos em tecnologia, onde a inovação é um fator determinante para a competitividade.

A implementação da ISO também pode trazer benefícios na relação das empresas com o ecossistema de inovação. Startups, universidades, centros de pesquisa e outros parceiros estratégicos podem se tornar aliados fundamentais no desenvolvimento de novas soluções. Empresas que adotam um sistema de gestão da inovação bem estruturado têm mais facilidade para estabelecer parcerias produtivas, uma vez que possuem processos claros para a identificação e desenvolvimento de oportunidades inovadoras.

No contexto global, as empresas que adotam padrões internacionais de inovação ganham credibilidade e aumentam suas chances de sucesso em mercados externos. O Brasil tem ampliado sua presença no comércio internacional, e a certificação em normas como a ISO 56001 pode ser um diferencial competitivo importante para empresas que desejam expandir suas operações. Além disso, ao adotar um padrão reconhecido globalmente, as empresas brasileiras podem atrair mais investimentos e estabelecer relações comerciais mais sólidas com parceiros internacionais

Mesmo com tantos benefícios, a ISO 56001 não é uma “solução mágica” para todos os desafios relacionados à inovação. Sua eficácia depende do compromisso das empresas em aplicá-la de forma consistente e integrada à sua estratégia de negócios. A norma deve ser vista como um instrumento que facilita a estruturação da inovação, mas seu sucesso dependerá do engajamento da liderança, da cultura organizacional e da capacidade da empresa de adaptar-se às novas demandas do mercado.

Plínio Pereira é gerente da área de Sistemas da TÜV Rheinland.

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