O agro brasileiro aprendeu a reagir rápido. Mas reagir não é o mesmo que enxergar. Basta um sinal de recuperação judicial, uma notícia sobre crédito restrito, um movimento eleitoral, uma oscilação nas commodities ou até mesmo uma conversa durante uma feira para que empresas desmontem planejamentos inteiros. O medo muda o foco. E existe um perigo quando o foco muda, porque geralmente a execução trava. E quando a execução trava, grandes empresas se perdem no resultado. O Inicio de 2026 começou mostrando exatamente isso.
O contexto estrutural de 2026: crédito apertado, inadimplência elevada, produção forte
Os dados vão nos exigir uma leitura estratégica.
“Crédito do agronegócio entra em nova fase em 2026” (09/02/2026).
Os Fiagros encerraram 2025 com captação líquida de R$ 9,1 bilhões e patrimônio superior a R$ 21 bilhões. O crédito está mais sofisticado, mas também mais seletivo.
“CNA: PIB do agronegócio crescerá 1% em 2026; inadimplência atinge 11,4%, maior patamar desde 2011” (jan/2026).
A inadimplência no setor alcançou 11,4%, o maior nível em mais de uma década.
“Crise das revendas agrícolas já destruiu R$ 5 bi dos credores” (09/01/2026).
A fragilidade financeira nas revendas já acumulou perdas superiores a R$ 5 bilhões.
Agora observe o contraponto.
“Brazilian agribusiness exports totaled US$ 10.8 billion in January 2026” (fev/2026).
O agro exportou US$ 10,8 bilhões apenas em janeiro, representando cerca de 42% das exportações brasileiras no mês. O volume embarcado cresceu 7%, mesmo com queda média de preços. Ou seja: Crédito pressionado. Inadimplência elevada. Preços comprimidos. Mas produção e volume fortes. Então ao contrário do que a turma do quanto pior melhor vem descrevendo o cenário não é de colapso. É sim de ajuste de rota e equilíbrio emocional afinal o nosso setor é um dos mais reativos do mercado.
Safra cheia, preço pressionado: o que paga a conta é gestão
“US farmers to sow more soybeans in 2026, less corn, USDA says” (19/02/2026).
O relatório indica estoques elevados e preços pressionados, reflexo de safras robustas.
“Harvest of Plenty, Profit of None: Grain Futures Slide as 2026 Supply Glut Looms” (02/02/2026).
A safra abundante de 2025 continua pressionando os preços futuros em 2026.
O mundo está produzindo muito. O Brasil está produzindo muito. Mas calma que preço baixo não significa automaticamente prejuízo. Produtor que controlou custo, travou parte da produção, trabalhou hedge e ajustou tecnologia à realidade da margem vai atravessar o ciclo. Porque, no final, quem paga a conta é a produtividade, mas é importante ressaltar que quem define a rentabilidade é a gestão. O problema é que o mercado está reagindo como se o preço fosse destino. Preço é variável externa não está nas mãos do produtor nem da cooperativa muito menos da indústria. Gestão é variável interna então precisamos melhorar a eficiência. E o medo faz o setor esquecer isso.
A miopia estratégica: cortar virou reflexo automático
Diante desse cenário, o movimento predominante foi: redução de equipe, corte de marketing, encolhimento de território, suspensão de expansão e congelamento de investimento. Enquanto isso, o volume exportado cresce. O agro continua relevante globalmente. Mas parte do mercado está operando como se estivéssemos diante de um colapso estrutural. Não estamos. Estamos diante de um ciclo de compressão de margem. E ciclo não se enfrenta com pânico é preciso estratégia e se a qualquer sinal de fumaça a estratégia muda o resultado será um ciclo de escassez prolongado.
O ponto de inflexão: o produtor mudou mas também está sobre pressão
O produtor hoje está mais racional e também apreensivo o medo não está só na cabeça dos líderes do mercado. Ele compara pacote tecnológico. Ele compara condição financeira.
Ele compara suporte técnico. Nesse cenário quem reduz presença perde espaço e quem reduz inteligência perde relevância. O agro sempre foi relacional mas em ciclos como 2026 ele se torna territorial, técnico e financeiro.
Impactos por Grupo Estratégico
Cooperativas
Se entram em modo defensivo, transmitem insegurança ao cooperado. Cortar assistência técnica enfraquece vínculo. Reduzir presença territorial abre espaço para concorrência. Precisam estruturar comitês de risco que não paralisem o comercial, trabalhar aumento de customer share, usar dados para recomendação técnica assertiva, oferecer instrumentos de gestão de risco ao cooperado e ter capacitação e direção para a equipe de campo. É a palavra de ordem. Agrônomos não podem virar apenas gestores de inadimplência. Gerentes precisam blindar planejamento contra ruído conjuntural. Diretores comerciais devem sustentar estratégia mesmo sob pressão.
Venda Direta das Indústrias
Se reduzem território por medo de crédito, perdem capilaridade. Precisam de segmentação real de clientes, política de crédito inteligente, integração entre dado financeiro e recomendação técnica, portfólio ajustado à nova realidade de margem e capacitação e direção para a equipe de campo é a palavra de ordem Executivos não podem confundir prudência com retração estratégica.
Distribuidores e Revendas
São os mais sensíveis ao ciclo. O erro comum é reduzir estoque drasticamente e perder timing. Com revendas pressionadas, o risco sistêmico aumenta. Mas ciclo de preço pressionado também é oportunidade de consolidação. Revenda que entende ciclo compra melhor. Porém se a revenda reage emocionalmente compra pior.
E as indústrias?
Dependem desses três canais para acessar o território. Se o canal entra em modo medo, a indústria perde presença. as indústrias precisam reavaliar modelo de canal, implementar inteligência preditiva, integrar dados climáticos, financeiros e comerciais, blindar governança comercial contra decisões emocionais e proporcionar capacitação e direção para a equipe de campo. É palavra de ordem. Quem dominar leitura de ciclo vai crescer.
O que vem a seguir!
2026 não começou com colapso. Começou com ajuste. Inadimplência elevada. Crédito mais caro. Preços pressionados. Safra forte. Exportação robusta. Líderes assustados. Isso não é fim de ciclo é importante entender que é teste de maturidade. Empresas que operam por medo vão encolher e muitas sairão do mercado. Empresas que operam por dados, estratégia e disciplina comercial vão ampliar participação o momento agora é de foco e direção e ser paralisado nesse momento é a pior estratégia. O medo enxerga crise. A visão enxerga ciclo. E no agro, quem entende ciclo constrói liderança.




