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Fertilizantes de matriz orgânica: o desafio de transformar abundância em autonomia

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Na foto, Roberto Levrero concede entrevista ao canal Fala Carlão

Os resíduos produzidos ao longo das cadeias agropecuárias e nos centros urbanos acumulam, anualmente, cerca de 8,57 milhões de toneladas de nutrientes que, em grande parte, ainda se perdem por falta de aproveitamento.

O tema ganha relevância diante da elevada dependência do país de insumos importados. Aproximadamente 85% do Nitrogênio (N), Fósforo (P) e Potássio (K) consumido nas lavouras vem do exterior. Em 2025, as entregas de fertilizantes ao mercado brasileiro somaram 49,1 milhões de toneladas, o maior volume da série histórica, dos quais cerca de 85% corresponderam a produtos importados. A oscilação cambial afeta diretamente o custo desses produtos. Crises internacionais afetam o fornecimento desses insumos. Para reduzir essa exposição, o Plano Nacional de Fertilizantes prevê que a participação das importações recue para um patamar entre 45% e 50% da demanda até 2050.

Essa meta depende do avanço simultâneo de diferentes cadeias. Os organominerais têm potencial estimado para suprir até 25% do NPK. Coprodutos e resíduos agrícolas podem atender a uma parcela semelhante da demanda por fósforo. Os agrominerais podem fornecer até 10% do potássio, enquanto os bioinsumos têm capacidade estimada para suprir 10% do nitrogênio e do fósforo. Essas alternativas não eliminam os fertilizantes minerais, mas podem tornar seu uso mais eficiente.

Matéria-prima não falta por aqui. As atividades rurais e as indústrias de processamento geram aproximadamente 3,85 bilhões de toneladas de resíduos por ano. Esse volume representa um potencial de produção de 1,18 bilhão de toneladas anuais de fertilizantes orgânicos. Considerando os nutrientes recuperáveis, a contribuição poderia corresponder a uma parcela entre 25% e 30% da demanda nacional.

O mercado indica que o produtor está incorporando essas tecnologias. Em 2025, as vendas de biofertilizantes alcançaram R$ 883 milhões, com aumento de 77% em relação ao ano anterior. No mesmo período, os fertilizantes orgânicos movimentaram R$ 1,081 bilhão e cresceram 58,5%. O segmento de organominerais chegou a R$ 2,810 bilhões, resultado 9% superior ao de 2024.

Um deles é a logística. Os resíduos são produzidos em diferentes regiões e, muitas vezes, apresentam alto teor de umidade. Como o valor por tonelada tende a ser baixo, o frete pode inviabilizar o aproveitamento em áreas distantes. Cadeias regionais ajudariam a reduzir esse problema. O processamento junto às fontes geradoras diminuiria a umidade do material, enquanto a granulação facilitaria sua aplicação, transporte e comercialização.

A expansão também depende de padronização e controle de qualidade. Como a composição varia segundo a origem, cada resíduo exige caracterização e tratamento adequado. É necessário controlar os riscos sanitários e a presença de metais pesados. O Brasil gera mais de 300 mil toneladas de lodo seco por ano, volume que poderá dobrar até 2033 com a ampliação do saneamento. Seu uso agrícola é possível, desde que cumpra os requisitos de segurança previstos nas regulamentações vigentes.

Outro aspecto importante é o carbono devolvido ao solo. As 89,1 milhões de toneladas de carbono orgânico presentes nos resíduos equivalem a cerca de 327 milhões de toneladas de CO₂. Isso não significa que todo esse carbono ficará armazenado. Uma parte é estabilizada no solo, enquanto outra retorna ao ciclo. Ainda assim, a incorporação de matéria orgânica aumenta a capacidade de troca de cátions e favorece a retenção de água. Com melhores condições físicas e químicas, o solo sustenta maior atividade biológica. Essa contribuição, em termos de comparação e em quantidade, equivalente para recuperar os cerca de 20 milhões de hectares de pastagens degradadas existentes no país.

Converter esse volume de resíduos em insumos agrícolas requer coordenação entre o setor produtivo e o poder público, com apoio da pesquisa. Essa conversão pode viabilizar novas unidades de processamento e incentivos fiscais ajudariam a ampliar a distribuição. A pesquisa aplicada deve aperfeiçoar os processos e adaptá-los às condições locais. Informações confiáveis sobre o mercado darão segurança aos investimentos. O Brasil já dispõe da matéria-prima e de empresas capacitadas. Falta fazer com que esses fertilizantes cheguem ao campo de modo regular e seguro, a um custo competitivo.

 

Roberto Levrero, presidente do Conselho Deliberativo da Abisolo.

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