Digitalização, ESG, novas fontes de financiamento, inteligência artificial e parcerias estratégicas devem guiar decisões do setor neste ano
O crédito é um dos pilares de sustentação do agronegócio brasileiro e 2026 já se desenha como um ano de transformação profunda para esse mercado. Em meio à digitalização acelerada, ao avanço da análise de dados e à busca por novas formas de financiamento, o setor é pressionado a migrar para um modelo mais eficiente, sustentável e orientado por risco. Esse movimento ocorre em um contexto de deterioração do crédito rural. A carteira ‘estressada’, que reúne operações em atraso, prorrogadas, renegociadas e inadimplentes, saltou de R$ 72,2 bilhões em julho de 2024 para R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025, segundo dados do Banco Central, alcançando cerca de 15% de todo o crédito ativo destinado ao agronegócio no país.
Esse crescimento da carteira estressada não é apenas pontual, ele evidencia a necessidade de repensar o modelo tradicional de crédito rural, que ainda depende muito de histórico passado e não está totalmente preparado para riscos climáticos, volatilidade de custos e mudanças regulatórias. 2026 será um ano decisivo para a transição rumo a um crédito mais técnico, preditivo e conectado à realidade produtiva do agronegócio. Diante desse cenário, aponto cinco tendências que devem guiar o crédito no agronegócio ao longo do ano:
1. Tornar o crédito mais digital e preditivo
Empresas e instituições financeiras precisam acelerar a adoção de plataformas digitais capazes de cruzar dados de produção, clima e histórico de pagamentos para antecipar comportamentos e reduzir riscos. Automatizar a análise de crédito e incorporar modelos preditivos é essencial para ampliar a eficiência operacional e garantir decisões mais assertivas. “Investir em tecnologia não é mais uma opção, é uma necessidade para reduzir incertezas e tomar decisões mais rápidas e precisas. O crédito preditivo permite que produtores e instituições financeiras antecipem problemas antes que eles se tornem prejuízos reais”, afirma Mayra Delfino.
2. Incorporar critérios ESG na concessão
Sustentabilidade e governança devem ser tratadas como parte do processo de avaliação de crédito, e não apenas como diferencial competitivo. Projetos que demonstrem boas práticas ambientais, rastreabilidade e impacto social positivo tendem a conquistar melhores condições de financiamento. Adotar métricas ESG é, portanto, uma forma de fortalecer a reputação e garantir acesso contínuo a capital. “Integrar critérios ESG ao processo de crédito não é apenas estratégico, é essencial para garantir que os financiamentos sejam sustentáveis e gerem impacto positivo. Projetos responsáveis tendem a ter acesso mais rápido e condições melhores no mercado financeiro”, explica.
3. Explorar novas fontes de financiamento
Os Fundos de Investimento no Agronegócio (FIAGROs) continuarão ganhando força em 2026, permitindo que produtores e empresas acessem recursos de maneira mais ágil e diversificada. Vale investir em conhecimento sobre essa modalidade, avaliar a viabilidade de captação via FIAGRO e buscar parcerias com gestoras especializadas para ampliar as oportunidades de crédito. “FIAGROs trazem novas oportunidades e permitem que produtores diversifiquem suas fontes de crédito de forma mais eficiente”, comenta Mayra.
4. Usar dados e inteligência artificial na gestão de risco
A integração de big data e inteligência artificial na análise de crédito se tornará indispensável. Essas tecnologias ajudam a identificar padrões de comportamento, prever inadimplência e personalizar ofertas financeiras conforme o perfil do cliente. O foco deve estar em construir bases de dados confiáveis e em treinar equipes para interpretar os insights gerados pelas ferramentas. “Big data e inteligência artificial permitem decisões mais rápidas e precisas, reduzindo riscos e melhorando a eficiência do crédito rural”, afirma
5. Fortalecer parcerias e ecossistemas colaborativos
O futuro do crédito agro passa cada vez mais pela colaboração entre diferentes agentes, como bancos, fintechs, cooperativas, tradings e indústrias. Criar ecossistemas de dados compartilhados, desenvolver soluções conjuntas e estimular a transparência ao longo de toda a cadeia são passos fundamentais para reduzir custos, agilizar o fluxo de informações e ampliar o acesso ao crédito de forma sustentável. “Fortalecer parcerias e construir ecossistemas colaborativos é estratégico para tornar o crédito mais acessível e eficiente, conectando produtores, instituições financeiras e demais elos da cadeia em decisões mais seguras e integradas”, finaliza Delfino.
Mayra Delfino é CEO e porta-voz do CONACREDI
Sobre o CONACREDI
Criado em 2018, o Congresso Nacional de Crédito no Agronegócio é o único congresso brasileiro que reúne gestores de crédito de indústrias, tradings, revendas, cooperativas e instituições financeiras para abordar sobre a concessão de crédito no Agronegócio. Anualmente, o evento debate as melhores práticas, inovações tecnológicas e tendências do mercado, criando um ecossistema de networking para profissionais e C-Levels do setor.


