As recentes declarações do vice-presidente Geraldo Alckmin e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sinalizam que o Acordo União Europeia–Mercosul ingressou em uma fase decisiva. No Brasil, a internalização avança no Congresso, com expectativa de aprovação no Senado e entrada em vigor em prazo relativamente curto. Do lado europeu, o acordo já se encontra em vigência provisória após as primeiras ratificações nacionais. Ainda restam etapas institucionais relevantes, incluindo análise jurídica no âmbito da UE e deliberação pelo Parlamento Europeu, mas o movimento político indica consolidação progressiva do processo.
Mais do que um instrumento de redução tarifária, o acordo representa uma arquitetura regulatória e estratégica com potencial de redefinir fluxos comerciais, cadeias de valor e padrões de investimento entre as duas regiões. Em um contexto internacional marcado por fragmentação geopolítica, disputas tecnológicas e crescente ênfase em sustentabilidade, a consolidação de um eixo econômico UE–Mercosul ganha dimensão estrutural.
Para os exportadores do Mercosul, especialmente brasileiros, o desafio imediato não será apenas ampliar volumes, mas adaptar-se a um dos ambientes regulatórios mais exigentes do mundo. O mercado europeu impõe padrões rigorosos em matéria sanitária e fitossanitária, rastreabilidade, sustentabilidade ambiental, compliance corporativo e due diligence em cadeias produtivas. A agenda ESG deixou de ser diferencial reputacional para tornar-se requisito de acesso a mercado.
Nesse contexto, instrumentos domésticos como eventuais salvaguardas transitórias podem oferecer previsibilidade à indústria local, mas não substituem a necessidade de ganhos estruturais de produtividade e governança. Setores como móveis, agronegócio processado, proteína animal, café, bioeconomia e economia verde tendem a encontrar oportunidades concretas — desde que combinem certificação técnica, estratégia de marca e presença institucional na Europa.
Para empresas europeias, o acordo abre perspectivas relevantes em um dos maiores mercados do hemisfério sul. O Brasil, como principal economia do Mercosul, apresenta escala, diversificação produtiva e demanda crescente por modernização tecnológica. Segmentos como máquinas e equipamentos, tecnologia industrial, energias renováveis, farmacêutico, automotivo, infraestrutura e serviços especializados podem se beneficiar da previsibilidade jurídica e da redução progressiva de barreiras comerciais.
Entretanto, a entrada no mercado brasileiro exige compreensão aprofundada do ambiente regulatório, do sistema tributário complexo, das especificidades federativas e de eventuais exigências de conteúdo local. A liberalização comercial reduz custos, mas não elimina a necessidade de estratégia institucional e planejamento de longo prazo.
Nesse cenário, países com posição institucional central na Europa e forte vocação logística tendem a desempenhar papel estratégico como plataformas de entrada. A proximidade com centros decisórios europeus, a presença de organismos multilaterais e a infraestrutura portuária e de distribuição são fatores que podem transformar determinados territórios em verdadeiros hubs de articulação birregional.
A criação de estruturas especializadas voltadas à inteligência regulatória, ao acompanhamento normativo e ao suporte técnico a empresas será fundamental para evitar improvisações. A experiência demonstra que acordos comerciais de grande escala geram, em um primeiro momento, forte entusiasmo político, seguido por um período de adaptação operacional que pode expor fragilidades institucionais e empresariais.
Outro ponto crítico será a organização das parcerias público-privadas e das iniciativas de apoio empresarial que surgirão em torno do acordo. A demanda por missões empresariais, estudos setoriais, relatórios regulatórios, programas de compliance e estratégias de market entry tende a crescer rapidamente. Sem governança clara, definição de escopo e modelo sustentável de financiamento, há risco de dispersão e perda de credibilidade.
A precificação de serviços de apoio deverá refletir valor agregado técnico e institucional, evitando tanto a banalização quanto a sobrevalorização oportunista. Modelos híbridos — combinando adesão institucional, projetos customizados e serviços recorrentes de inteligência regulatória — podem oferecer equilíbrio entre sustentabilidade financeira e acesso empresarial.
O Acordo UE–Mercosul deve ser interpretado como parte de uma reconfiguração geoeconômica mais ampla. Em um mundo marcado por tensões comerciais entre grandes potências e pela busca de cadeias produtivas mais resilientes, a aproximação entre Europa e América do Sul pode representar um eixo de estabilidade normativa e convergência regulatória.
A vantagem competitiva, entretanto, não será automática. Ela dependerá da capacidade de empresas, associações e governos de se anteciparem às exigências técnicas, estruturarem canais institucionais sólidos e transformarem oportunidade política em resultados econômicos sustentáveis. Preparação estratégica — e não apenas entusiasmo — será o verdadeiro diferencial nesta nova etapa da integração birregional.
E como sempre, caros leitores, vale lembrar que quem vive e trabalha em Bruxelas acompanha de perto a dinâmica institucional europeia e seus processos decisórios. O momento aponta para transformações relevantes, com potencial de gerar desenvolvimento econômico e impactos sociais positivos, desde que conduzidas com responsabilidade, previsibilidade e respeito aos princípios que regem a União Europeia.
Jogi Humberto Oshiai é Presidente do Lide Bélgica, em Bruxelas.




