Patente obtida pelo instituto facilita conversão da biomassa em energia renovável e aumenta a eficiência agrícola
A corrida global por combustíveis de baixo carbono tem ampliado o interesse por tecnologias capazes de extrair mais energia das mesmas áreas cultivadas. Nesse cenário, a cana-de-açúcar ocupa posição privilegiada por reunir elevada produtividade agrícola e grande capacidade de geração de biomassa. O desafio passa a ser transformar esse potencial biológico em eficiência industrial, reduzindo perdas e ampliando o aproveitamento energético da matéria-prima.
Foi justamente nessa fronteira tecnológica que o Instituto Agronômico (IAC) alcançou um novo avanço. A instituição obteve patente para uma ferramenta biotecnológica capaz de aumentar a produção de biomassa vegetal e alterar sua composição, tornando-a mais adequada aos processos industriais utilizados na fabricação de biocombustíveis avançados. O desenvolvimento é resultado de aproximadamente duas décadas de pesquisas conduzidas pelo Laboratório de Biotecnologia da Divisão Avançada de Pesquisa e Desenvolvimento de Cana do instituto, em Ribeirão Preto (SP).
A inovação está baseada na superexpressão do gene SHINE, responsável por regular processos ligados ao crescimento vegetal e à composição da parede celular das plantas. Segundo os pesquisadores, a tecnologia promove simultaneamente aumento da biomassa produzida, redução dos teores de lignina e maior eficiência da sacarificação, etapa fundamental para converter biomassa em açúcares fermentáveis.
Para Silvana Aparecida Creste Dias de Souza, pesquisadora do IAC e inventora da patente, os resultados abrem novas possibilidades para a bioenergia. “Essa combinação é particularmente interessante para a produção de etanol celulósico, combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), bioquímicos e outros produtos da bioeconomia”, afirma.
O impacto sobre o etanol de segunda geração (2G) é considerado especialmente relevante. Diferentemente do etanol convencional, produzido a partir dos açúcares presentes no caldo da cana, o etanol 2G depende da quebra da estrutura lignocelulósica presente em bagaço e palha. A lignina, um dos principais componentes da parede celular vegetal, representa um obstáculo importante nesse processo por dificultar o acesso das enzimas à celulose e à hemicelulose.
“Nosso objetivo foi desenvolver uma tecnologia capaz de atuar simultaneamente em dois gargalos importantes da produção de etanol de segunda geração: aumentar a disponibilidade de biomassa e melhorar sua conversão em açúcares fermentáveis. Os resultados demonstraram que o gene SHINE possui grande potencial para aplicações em culturas energéticas”, destaca Silvana.
Os testes de campo realizados em variedades de cana desenvolvidas pelo próprio instituto revelaram ganhos consistentes de biomassa seca por hectare e aumento da produção de açúcar por área cultivada ao longo de dois ciclos agrícolas. Segundo a pesquisadora, os resultados indicam que a tecnologia pode beneficiar simultaneamente a produção de açúcar, etanol e energia.
Além da aplicação imediata no setor sucroenergético, o IAC avalia que a ferramenta poderá futuramente ser incorporada a programas de melhoramento genético e engenharia de plantas, combinando-se com características como resistência a pragas, tolerância a herbicidas e adaptação a condições ambientais adversas.
Ao completar 139 anos de existência, o instituto reforça uma trajetória histórica de geração de conhecimento para o agro brasileiro. Desta vez, a contribuição aponta para uma agenda que une produtividade, inovação e transição energética.




