Uso experimental do tucupi e práticas tradicionais embasam projeto premiado de enfrentamento à vassoura-de-bruxa
A busca por soluções sustentáveis para proteger a produção de mandioca na Amazônia colocou a integração entre ciência e conhecimento tradicional no centro de uma iniciativa premiada nacionalmente. Um projeto de manejo agrícola desenvolvido pela Embrapa Amapá recebeu o Prêmio Samuel Benchimol 2025, na categoria Iniciativa de Desenvolvimento Local (IDL), ao propor estratégias inovadoras para enfrentar a vassoura-de-bruxa da mandioca, praga quarentenária que ameaça a segurança alimentar de comunidades indígenas do extremo norte do país.
A proposta é de autoria do analista de transferência de tecnologia Jackson de Araújo dos Santos, e combina métodos científicos com práticas tradicionais indígenas. Entre as ações previstas está o uso experimental do tucupi — líquido derivado da manipueira, rico em ácido cianídrico — como possível fungicida natural, além de podas fitossanitárias para reduzir a pressão do fungo nas lavouras.
O trabalho será conduzido por meio da instalação de cinco Unidades de Referência Técnica Indígena (URTIs) nas Terras Indígenas de Oiapoque (AP), onde, em 2024, foi registrado pela primeira vez na América do Sul o fungo Rhizoctonia theobromae, causador da doença. A iniciativa envolve ainda a atuação conjunta do Conselho dos Caciques dos Povos Indígenas de Oiapoque (CCPIO), Funai, Iepé e Rurap, seguindo o Protocolo dos Indígenas de Oiapoque.
“O manejo proposto busca reduzir a disseminação da praga, aumentar a longevidade das roças e preservar variedades nativas de mandioca”, destaca Jackson de Araújo dos Santos. Segundo ele, o objetivo central é garantir a segurança alimentar e a soberania cultural, social e econômica das comunidades indígenas da região.
O contexto é desafiador. As Terras Indígenas Uaçá, Galibi e Juminá somam mais de 518 mil hectares, com cerca de 8 mil indígenas de diferentes etnias, em uma área onde a mandioca é base da alimentação e da economia local. Atualmente, a praga está presente em 10 dos 16 municípios do Amapá e em áreas do norte do Pará.
Criado em 2003, o Prêmio Samuel Benchimol reconhece iniciativas inovadoras voltadas ao desenvolvimento sustentável da Amazônia. Em 2025, a premiação total da categoria IDL foi de R$ 90 mil, divididos entre três projetos selecionados.
O que é a vassoura-de-bruxa da mandioca
Agente causador
- Fungo Rhizoctonia theobromae
O que provoca na planta
- Brotamento excessivo e deformado dos ramos
- Redução do crescimento
- Comprometimento da formação das raízes
- Queda acentuada da produtividade
Status fitossanitário
- Praga quarentenária no Brasil
- Primeira ocorrência registrada na América do Sul em 2024, no Amapá
Áreas afetadas
- Presente em 10 dos 16 municípios do Amapá
- Ocorrências também no norte do Pará
Impactos potenciais
- Ameaça à segurança alimentar de comunidades tradicionais
- Risco à diversidade genética de variedades nativas de mandioca
- Possível expansão para outras regiões produtoras
Formas de manejo em estudo
- Podas fitossanitárias
- Uso experimental de tucupi como fungicida natural
- Monitoramento contínuo e manejo integrado




