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Teste da Embrapa diz se inovações são viáveis

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Metodologia poderá apoiar produtores, startups, investidores e formuladores de políticas públicas

 

Nem toda tecnologia desenvolvida para a agricultura consegue chegar efetivamente ao campo. Embora sensores, drones, aplicativos e sistemas de inteligência artificial avancem rapidamente, muitas soluções deixam de ser adotadas por não atenderem às necessidades reais dos produtores ou por exigirem infraestrutura indisponível nas propriedades. Para enfrentar esse desafio, pesquisadores da Embrapa e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma metodologia capaz de medir o potencial de sucesso dessas tecnologias antes mesmo de sua implantação.

O modelo foi criado no âmbito do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital (Semear Digital) e tem como objetivo indicar se uma inovação reúne condições reais para ser adotada em determinado contexto agrícola. Em vez de avaliar apenas a qualidade técnica de uma solução, a ferramenta considera fatores como infraestrutura disponível, perfil do produtor, características da propriedade, viabilidade econômica e condições regionais para estimar suas chances de uso efetivo no campo.

Segundo Luciana Romani, pesquisadora da Embrapa Agricultura Digital e coordenadora de parcerias do Semear Digital, a proposta é apoiar diferentes públicos na tomada de decisões. “É uma ferramenta criada para apoiar a decisão, seja de produtores rurais, desenvolvedores de tecnologias para o campo ou investidores da área. Ao ter uma nota de viabilidade da tecnologia para aquele contexto, o produtor rural e extensionistas podem avaliar se ela será, de fato, útil para a propriedade. Essa nota também pode auxiliar no julgamento de investimentos, sejam privados ou do poder público, e no próprio processo de desenvolvimento dessas tecnologias em laboratório”, explica.

Para construir a metodologia, a equipe realizou uma ampla revisão científica. O trabalho começou com a análise de 814 publicações sobre adoção de tecnologias digitais na agricultura, seguida do aprofundamento de 20 estudos de caso e do mapeamento de indicadores nacionais e internacionais já utilizados para avaliar inovação no setor. A partir desse levantamento, os pesquisadores desenvolveram um modelo próprio que incorpora variáveis pouco exploradas por metodologias existentes, como relevo, disponibilidade de conectividade, geração de resíduos, consumo de água, aspectos jurídicos e até a situação fundiária da propriedade.

A ideia foi justamente suprir essa necessidade de saber se dá certo aplicar aquela tecnologia digital num contexto agrícola específico“, afirma Thais Dibbern, docente da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp e pesquisadora associada ao Semear Digital. Segundo ela, fatores como confiança do produtor, facilidade de uso e características locais podem ser tão determinantes para a adoção de uma inovação quanto seu desempenho técnico.

A metodologia também passou por um rigoroso processo de validação. Um grupo formado por 22 especialistas das áreas de agronomia, engenharia, computação e estatística participou da definição dos pesos atribuídos a cada variável, permitindo a criação de uma escala de viabilidade que varia de 1 a 5. Em seguida, a ferramenta foi aplicada em duas tecnologias desenvolvidas pela Embrapa: o aplicativo Aquicultura Certa, voltado à gestão da piscicultura, e um equipamento capaz de contabilizar automaticamente frutos durante a colheita.

Os testes revelaram resultados interessantes. No caso do Aquicultura Certa, os desenvolvedores atribuíram nota 3 para a viabilidade da tecnologia, enquanto os produtores que utilizavam o sistema avaliaram a ferramenta com nota 4. Para os pesquisadores, essa diferença mostra que quem desenvolve uma inovação tende a considerar barreiras existentes em todo o universo de propriedades rurais, enquanto os usuários avaliam a experiência dentro da realidade em que a tecnologia já está inserida. Já o sistema de contagem automática de frutos recebeu nota 4 em ambos os grupos, indicando elevada viabilidade de adoção.

Agora, a expectativa da equipe é transformar a metodologia, atualmente operacionalizada em uma planilha eletrônica, em um aplicativo ou plataforma digital de acesso mais amplo. Antes disso, uma nova etapa de validação deverá incorporar fatores como facilidade de uso e impactos sobre o bem-estar animal, ampliando a precisão das avaliações. Além de orientar produtores e desenvolvedores, os pesquisadores acreditam que a ferramenta poderá contribuir para direcionar investimentos privados, apoiar startups na criação de soluções mais aderentes às necessidades do campo e subsidiar políticas públicas voltadas à agricultura digital.

 

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