Uma empresa do GRUPO PUBLIQUE

Cana avança por arrendamento e redefine dinâmica fundiária em São Paulo

Compartilhe:

Pesquisa mostra que mecanização e exigências logísticas ampliam controle territorial das usinas no entorno das unidades industriais

 

A expansão da cana-de-açúcar em São Paulo tem redesenhado o uso da terra no Estado sem, necessariamente, alterar a titularidade formal das propriedades. Em vez de adquirir áreas, empresas do setor sucroenergético passaram a ampliar seus canaviais por meio do arrendamento de pequenas e médias fazendas, concentrando a gestão produtiva sob um único administrador.

A análise é tema de estudo do professor José Giacomo Baccarin, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp, publicado na revista Land Use Policy. O conteúdo foi divulgado originalmente pelo Jornal da Unesp e serviu de base para esta reportagem.

Segundo o levantamento, em 2017 estabelecimentos agrícolas com mais de mil hectares respondiam por 45% da área agrícola paulista, embora imóveis desse porte representassem apenas 21% da área formalmente registrada. Isso indica que grandes empreendimentos operam sobre um mosaico de propriedades menores reunidas sob um mesmo comando produtivo.

A lógica é impulsionada por uma característica da cultura: a cana precisa ser processada em até 50 quilômetros do local de corte. Distâncias maiores elevam custos e perdas de matéria-prima, levando usinas a formar “cinturões” de cultivo ao redor de suas unidades industriais. “Cerca de 60% da cana moída em São Paulo é produzida pelas próprias usinas”, afirma Baccarin. “E 40% é adquirida de fornecedores de cana, de agricultores.”

O processo ganhou força após o Protocolo Agroambiental de 2007, que acelerou a mecanização da colheita. A necessidade de escala e investimento em maquinário elevou custos fixos e dificultou a permanência de pequenos fornecedores independentes.

Além dos impactos produtivos, o estudo aponta mudanças no perfil dos proprietários que arrendam suas terras. Muitos migraram para atividades urbanas e passaram a viver da renda do aluguel rural. “Os filhos e netos dos primeiros arrendatários já não tem vocação nem capital para a agricultura. Eles se desfizeram dos tratores”, observa o pesquisador.

Para Baccarin, o modelo traz ganhos de eficiência, mas levanta desafios sociais, ambientais e de distribuição de renda, além de exigir políticas públicas que estimulem a diversificação produtiva nas pequenas propriedades.

Encontre na AgroRevenda