Menor moagem de cana é compensada por estratégia mais alcooleira. Setor se ajusta por conta da instabilidade climática e pressão geopolítica
Mesmo diante de uma safra marcada por recuo na moagem de cana-de-açúcar, as regiões Norte e Nordeste registram avanço na produção de etanol, refletindo uma mudança estratégica no direcionamento da indústria sucroenergética. O movimento evidencia a influência de fatores climáticos e, principalmente, do cenário internacional sobre as decisões produtivas do setor.
De acordo com levantamento da Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio), a moagem acumulada até o fim de fevereiro somou 52,8 milhões de toneladas, queda de 4,1% em relação ao mesmo período do ciclo anterior. Apesar disso, o volume de etanol produzido alcançou 2,79 milhões de metros cúbicos, crescimento expressivo frente aos 2,156 milhões registrados um ano antes.
O avanço foi impulsionado tanto pela produção a partir da cana quanto pelo etanol de milho, que vem ganhando espaço na matriz energética regional. No recorte da cana, o etanol anidro apresentou alta de 3,4%, enquanto o hidratado registrou leve retração. Já o biocombustível derivado do milho somou 648,5 mil metros cúbicos, reforçando sua relevância crescente no setor.
A mudança no mix produtivo ocorre em um contexto de instabilidade climática e pressão geopolítica. “Na esfera macroeconômica, é uma temporada fortemente influenciada pela agenda geopolítica”, afirma o presidente executivo da NovaBio, Renato Cunha. Ele explica que o direcionamento maior para o etanol está associado à volatilidade dos preços do açúcar no mercado internacional e aos impactos de medidas comerciais, como tarifas que afetaram as exportações brasileiras.
Enquanto o etanol avança, a produção de açúcar recuou 13,8%, totalizando 2,988 milhões de toneladas no período. Os dados também indicam queda na qualidade da matéria-prima, com redução de 7% no Açúcar Total Recuperável (ATR), refletindo os desafios enfrentados ao longo da safra.
Mesmo com esse cenário, o setor segue com alto nível de execução da safra, atingindo quase 90% da moagem prevista até fevereiro. O desempenho reforça a capacidade de adaptação da indústria, que ajusta rapidamente suas estratégias diante das oscilações de mercado e das condições climáticas.




