Com crescimento acelerado e pressão por sustentabilidade, bioinsumos ganham espaço e redesenham a proteção de cultivos
A proteção de cultivos no Brasil está passando por uma mudança estrutural — e os bioinsumos avançam como protagonistas dessa transformação. A expectativa de que o controle biológico atinja até 50% do mercado até 2050 sinaliza uma reconfiguração profunda no modelo produtivo, impulsionada por sustentabilidade, inovação e pressão de mercado.
A projeção foi apresentada durante o BioSummit 2026, que vai até hoje em Campinas (SP), e reflete uma trajetória de crescimento consistente. Em 2025, os biológicos já avançaram 12% no país, consolidando uma curva ascendente que tende a se intensificar nos próximos anos.
“Cinco anos atrás registrávamos em torno de 3% de crescimento ao ano. A curva de crescimento do mercado mundial de pesticidas químicos, até 2030, vai ser 5% do controle químico. Há também países onde o controle químico está diminuindo no mercado. Para 2030, a previsão é que dos US$ 106 bilhões de proteção de cultivos em nome geral, cerca de US$ 18 bilhões sejam de controle biológico. Ou seja, o mercado será de 20% de controle biológico”, afirma o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Wagner Bettiol. Ele abriu o primeiro dia da terceira edição do BioSummit, que este ano tem como tema “Bioinsumos e agricultura regenerativa: cultivando o futuro sustentável”.
O avanço dos biológicos está diretamente ligado a fatores estruturais. A pressão por alimentos mais sustentáveis, as dificuldades no desenvolvimento e registro de novos químicos e o surgimento de tecnologias mais eficientes têm acelerado a adoção no campo. Hoje, segundo o pesquisador, praticamente todos os grandes produtores brasileiros já utilizam algum tipo de controle biológico.
“Para atingir essa totalidade precisamos, em primeiro lugar, levar o conhecimento para esse agricultor, que ainda não tem acesso às informações sobre o controle biológico. Precisamos ampliar a ciência técnica, treinamentos e levar esse conhecimento para esses agricultores. Já estão surgindo empresas de tecnologia que estão trabalhando com nichos de mercado menores, e levando esse conhecimento para esses pequenos produtores”, afirma Wagner Bettiol.
Além do aspecto produtivo, o ganho ambiental reforça o movimento. “Para produzir um quilo de pesticida a gente emite pelo menos cinco vezes mais dióxido de carbono do que para produzir a mesma quantidade de biológico. Só isso já mostra o efeito benéfico desse controle aqui para o ambiente”, afirma Wagner Bettiol.
Na prática, o uso de agentes biológicos também melhora a qualidade do solo, favorece o sistema radicular e contribui para maior retenção de carbono — fatores que elevam a eficiência produtiva e reduzem a dependência de insumos convencionais.
O movimento já se reflete em culturas específicas. Na cana-de-açúcar, por exemplo, o uso de biológicos cresceu 39% em 2025, movimentando R$ 716 milhões, com predominância de bioinseticidas, biofungicidas e bionematicidas.
Para Daiana Lopes, organizadora do evento, a adesão crescente ao tema evidencia a maturidade do setor. “Tivemos um público além do esperado, que pôde assistir a palestras de altíssimo nível sobre diversos tema ligados ao controle biológico. Amanhã a programação continua com o mesmo patamar de painéis e palestras.”
Diante desse cenário, a tendência é clara: os biológicos deixam de ser complemento e passam a ocupar posição central na estratégia agrícola. A próxima década deve consolidar essa transição, com impacto direto na produtividade, nos custos e na sustentabilidade do agronegócio.




