Passivo bilionário, atrasos a cooperados e impasses formam um cenário de risco altamente complexo para a mais antiga agrocooperativa do país, fundada há 115 anos
Poucas histórias recentes ilustram de forma tão clara os riscos sistêmicos do cooperativismo agroindustrial quanto a crise da Cotribá, a mais antiga agrocooperativa em atividade no país, com 115 anos de história, e uma das mais tradicionais do Rio Grande do Sul. Com sede em Ibirubá, a organização passou, ao longo de 2025, de referência regional a símbolo de um colapso financeiro que atingiu não apenas balanços, mas também a confiança de milhares de produtores associados.
O agravamento do cenário tornou-se público quando cooperados começaram a relatar atrasos no pagamento de grãos entregues, em alguns casos substituídos por cronogramas parcelados e promessas condicionadas à venda de ativos. O problema, porém, vinha sendo gestado havia mais tempo, resultado de uma combinação de investimentos elevados, safras adversas, aumento expressivo dos custos financeiros e forte concentração de dívidas no curto prazo.
Com o caixa pressionado, a cooperativa passou a buscar soluções emergenciais, como desinvestimentos e negociações com credores. Em assembleias realizadas em 2025, a direção apresentou planos de reestruturação financeira que incluíam a renegociação ampla do passivo, estimado em cerca de R$ 1 bilhão, e a captação de recursos por meio de contratos bilionários destinados a alongar prazos e recompor liquidez. A dívida da cooperativa pode chegar a R$ 1,5 bilhão, segundo estimativa do site AgFeed.

Apesar das medidas, a deterioração da confiança foi rápida. Fornecedores endureceram condições comerciais, produtores ampliaram a pressão por pagamentos e a cooperativa passou a enfrentar protestos, bloqueios logísticos e ruído reputacional na região. Em estruturas cooperativistas, esse fator tem peso decisivo: quando a previsibilidade de recebimento falha, o impacto se espalha pela cadeia — do custeio agrícola à compra de insumos.
Recuperação judicial
Diante da dificuldade de negociação com credores financeiros, a crise migrou para o Judiciário e abriu um debate inédito no país: a possibilidade de cooperativas recorrerem a mecanismos semelhantes à recuperação judicial.
Decisões judiciais tomadas no fim de 2025 chegaram a suspender cobranças e execuções, oferecendo fôlego temporário à cooperativa. No entanto, recursos posteriores derrubaram ou limitaram essas proteções, reativando disputas por garantias e ampliando a insegurança jurídica do processo. Em fevereiro deste ano, a cooperativa recuou e desistiu de tentar a recuperação judicial.
O caso ganhou repercussão nacional por potencialmente criar um precedente regulatório. Bancos reagiram com contestações e entidades do cooperativismo demonstraram preocupação com os efeitos institucionais de uma eventual equiparação às empresas tradicionais em processos de reestruturação.
A crise também provocou mudanças internas relevantes. A cooperativa promoveu troca de executivos em meio à reestruturação e viu entidades representativas do cooperativismo gaúcho se afastarem do acompanhamento direto do processo, citando divergências sobre o modelo adotado para enfrentar o passivo.
Esse distanciamento ampliou a percepção de isolamento institucional, elemento que, no ambiente cooperativista, tende a agravar ainda mais a perda de confiança.
Mais do que um episódio isolado, a trajetória recente da Cotribá expõe três vetores críticos que se retroalimentam: desequilíbrio financeiro e endividamento elevado, erosão da confiança dos associados e insegurança jurídica sobre instrumentos de recuperação.
Para o ecossistema agro — que inclui revendas, tradings e fornecedores — o caso se transformou em estudo de risco. Ele evidencia como crises de liquidez em cooperativas podem rapidamente ultrapassar o âmbito interno e afetar cadeias produtivas inteiras, com impactos diretos no crédito rural, na comercialização e na estabilidade regional.
Ao mesmo tempo, a situação coloca no centro do debate uma questão estrutural: quais mecanismos legais e financeiros o cooperativismo brasileiro terá para atravessar ciclos de endividamento sem comprometer sua base social e sua função econômica no agro.
Nova gestão
Um dos mais recentes e relevantes passos da cooperativa foi a escolha de um novo presidente, Carlos Waldemar Wilke Diehl, que já havia atuado como conselheiro da Cotribá e mais recentemente ocupava a vice-presidência, no curto período em que Enio Cezar Moura do Nascimento foi presidente. Nascimento havia sido galgado à presidência após a renúncia de Celso Leomar Krug, que alegou problemas de saúde e deixou o comando da Cotribá em outubro de 2025. Entre a saída de Krug e a posse de Diehl, a cooperativa teve duas experiências de gestão que foram breves. Primeiro, foi contratado um CEO, Luís Felipe Maldaner, e depois uma consultoria, a Tarvos Partners, ambos desligados após poucas semanas.
A expectativa em torno da gestão de Diehl é muito grande. A proposta da nova diretoria é fazer uma radiografia da extensão da crise e realizar uma auditoria para saber o que levou a Cotribá a essa situação. Além, é claro, de conduzir as negociações das dívidas da cooperativa e de venda de ativos a grupos econômicos interessados em participar da recuperação.
Diehl estimou recentemente, em entrevista à Rádio Cidade, de Ibirubá, que seriam necessários R$ 400 milhões em investimentos feitos por fundos ou bancos para que a cooperativa recupere seu fluxo de caixa. À Rádio Gaúcha, ele negou que os cooperados terão que ratear a dívida milionária da cooperativa, mas explicou que o prejuízo apresentado pela Cotribá no exercício de 2025, de cerca de R$ 258 milhões, será lançado aos associados, conforme estabelecem as normas do sistema cooperativo. Esse resultado negativo teria sido escondido dos associados pela gestão anterior.
De qualquer forma, ele garantiu que nenhum associado terá que por a mão no bolso agora e que, assim que as negociações caminhares, os cooperados que depositaram sua produção agrícola na cooperativa começarão a receber, mesmo com prazos mais alongados.
Linha do tempo da crise da Cotribá
A crise na Cotribá intensificou-se em 2025 devido a um endividamento bilionário e culminou em uma mudança completa de gestão em março de 2026. Abaixo, os principais marcos dessa trajetória:
- 2023–2024 – Pressão silenciosa: A cooperativa amplia investimentos e enfrenta safras irregulares no Sul. Juros elevados encarecem o custo do crédito e comprimem o fluxo de caixa. Passivos começam a se concentrar no curto prazo, elevando o risco financeiro.
- Maio de 2025 – Primeiros Sinais: Surgem atrasos nos pagamentos a produtores pela soja entregue, gerando monitoramento do setor financeiro e perda de acesso ao crédito.
- Setembro de 2025 – Crise Pública: Produtores realizam protestos e bloqueiam unidades da cooperativa em Ibirubá e Cruz Alta para impedir a retirada de grãos. O passivo é estimado em mais de R$ 1 bilhão, valor que analistas elevam para até cerca de R$ 1,5 bilhão.
- Outubro de 2025 – Mudanças na Gestão: Celso Leomar Krug deixa a presidência. A cooperativa contrata o CEO Luís Felipe Maldaner e cria um comitê para reestruturar dívidas e reavaliar ativos.
- Janeiro de 2026 – Rompimento com Consultoria: O CEO Luís Felipe Maldaner é demitido após apenas quatro meses. O contrato com a consultoria Tarvos Partners é encerrado devido a divergências estratégicas sobre os métodos de combate ao endividamento.
- Fevereiro de 2026 – Desistência da RJ: A Cotribá desiste formalmente do pedido de Recuperação Judicial, optando por uma reestruturação interna e negociação direta com credores.
- 10 de Março de 2026 – Nova Diretoria: Em Assembleia Geral Ordinária, os cooperados elegem Carlos Waldemar Wilke Diehl como o novo presidente (chapa única). A nova gestão assume com o compromisso de transparência e um plano para restabelecer a sustentabilidade da cooperativa até 2028.




