Evento amplia público global e leva marcas, varejistas, ONGs e pesquisadores para conhecer produção, qualidade, sustentabilidade e rastreabilidade da fibra brasileira
O algodão brasileiro quer ser conhecido pelo mercado internacional antes mesmo de chegar às fiações. A estratégia de promoção da fibra avançou, neste ano, sobre outros elos capazes de influenciar decisões de compra, requisitos de sustentabilidade e posicionamento de produtos têxteis. Pela primeira vez em formato ampliado, o Cotton Brazil Dialogues levou ao campo representantes de marcas, varejistas, ONGs e institutos de pesquisa, além dos compradores tradicionais da indústria.
Ao todo, 50 participantes de 14 países percorreram fazendas, unidades de beneficiamento, laboratórios e centros de pesquisa. As duas rodadas de imersão, realizadas em julho e agosto, passaram por Mato Grosso, Bahia, Goiás e Distrito Federal. A programação abordou qualidade, sustentabilidade, rastreabilidade, tecnologia e inovação.
Realizada desde 2015, a iniciativa é liderada pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e pela Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), com apoio da ApexBrasil. Em 2026, dos 50 visitantes, 32 representavam indústrias de fiação e 18 eram ligados a marcas, varejistas e ONGs.
A mudança amplia o alcance da promoção internacional. Se a fiação permanece fundamental como compradora da matéria-prima, decisões tomadas por marcas e outros agentes da cadeia ganham relevância na definição de atributos esperados da fibra.
Para Fernando Rati, gerente do Cotton Brazil, a experiência presencial ajuda a transformar conceitos apresentados comercialmente em conhecimento concreto da produção. “Eles veem, tocam e conversam diretamente com quem produz”, afirma. Segundo ele, esse contato contribui para construir confiança entre os visitantes e o setor.
O movimento ocorre em uma fase de expansão internacional. Segundo a Abrapa, o Brasil encerrou o ano comercial 2025/26 com 3,37 milhões de toneladas de algodão exportadas, volume 19% superior ao período anterior e recorde histórico.
Produção sob os olhos do mercado
Abrir fazendas e estruturas produtivas também significa colocar práticas ambientais, sociais e tecnológicas sob avaliação direta. Entre os visitantes estava Renska Koster, Cotton Relationship Manager da Textile Exchange, que destacou a oportunidade de acompanhar a implementação do programa ABR e compreender como o algodão é produzido em sistema de sequeiro com padrões de qualidade e ambientais.
Bharat Desai, da indiana Arvind Mills, ressaltou inovação, qualidade e compartilhamento de conhecimento como características observadas na produção brasileira. A exposição direta também funciona nos dois sentidos. Segundo Lisa Ventura, gerente de Parcerias Internacionais da Abrapa, os retornos dos participantes já estão sendo compartilhados internamente para identificar oportunidades de melhoria na produção e aperfeiçoar a próxima edição.
Ao ampliar o diálogo, o setor brasileiro acrescenta uma nova camada à estratégia exportadora. Não basta aumentar a oferta de fibra: é preciso construir confiança sobre como ela é produzida e levar essa informação até agentes que, mesmo sem comprar diretamente o algodão, influenciam cada vez mais o que o mercado global procura.


