13 de julho de 2023

Floresta conservada aumenta em 4 vezes produtividade de açaí

O trabalho avaliou a introdução de colônias de abelhas nativas da Amazônia, da espécie Scaptotrigona postica, conhecida popularmente como abelha canudo, em áreas com plantios de açaizeiro.

 

Estudo pioneiro da Embrapa sobre o cultivo do açaizeiro em terra firme na Amazônia mostra que a presença de grandes áreas de vegetação nativa no entorno ou próximas aos plantios de açaí em terra firme pode aumentar em quatro vezes a produtividade do açaizal quando comparada à lavoura com ausência de floresta. O trabalho, publicado  ontem (12/7) no Journal of Applied Ecology, teve como abordagem a polinização integrada de cultivos, e comprovou que a conservação da floresta é mais eficiente para aumentar a produtividade das áreas, o lucro do produtor e garantir a manutenção da biodiversidade, do que o manejo de abelhas nativas dentro dos cultivos.

A polinização é um fator crucial para a produção de frutos do açaizeiro, uma vez que é uma palmeira de polinização cruzada (autoincompatível) e apresenta flores masculinas e femininas em tempos diferentes nas inflorescências. Ou seja, precisa de um agente que transporte o pólen das flores masculinas para as flores femininas de touceiras diferentes e, assim, possibilite a fecundação e a formação de frutos.

“Estudos anteriores já mostravam que o açaizeiro tem uma mega diversidade de visitantes florais, como abelhas, moscas, vespas, besouros e formigas. Mas são as abelhas nativas da Amazônia os polinizadores mais eficientes dessa palmeira“, lembra a bióloga Márcia Maués, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental.

Para compreender o impacto da introdução de caixas de abelhas em meliponários móveis nos plantios e a relação com a floresta próxima a essas áreas, os pesquisadores fizeram um amplo trabalho de campo. O grupo avaliou 18 áreas de plantio de açaizeiro em terra firme, distribuídas em sete municípios do estado do Pará. A escolha dessas áreas foi condicionada à presença de mais ou menos floresta nas proximidades dos cultivos. “No estudo, usamos um gradiente de cobertura florestal que vai de 10% a 40% no entorno ou próximo aos plantios e a abundância e riqueza de polinizadores silvestres presentes no ambiente”, afirma a pesquisadora.

A abordagem da polinização integrada de cultivos envolve tanto o manejo de polinizadores quanto o manejo da paisagem e foi a primeira vez que essa metodologia foi utilizada para os plantios de açaizeiro. “Existem duas estratégias principais para promover os serviços de polinização: manejo de polinizadores (introdução de caixas de abelha dentro dos plantios) ou melhorar as condições ambientais para aumentar a abundância e diversidade de polinizadores nativos no ambiente”, explica o biólogo Alistair Campbell, pesquisador colaborador da Embrapa Amazônia Oriental.

O foco do trabalho, continua Campbell, foi integrar as duas estratégias para mostrar ao produtor qual a melhor opção em diferentes cenários. “Ao longo do gradiente florestal, quando e onde compensa o produtor trabalhar com abelhas manejadas? Sempre vale ou nunca vale?”, questiona o pesquisador.

O principal resultado apontado pelo trabalho, como explica o biólogo Cristiano Menezes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, é que, no caso do açaí, o manejo da abelha canudo contribuiu parcialmente para o aumento da produtividade, mas os custos envolvidos não justificaram a ação. “Isso porque o aumento da produtividade com o manejo dessa espécie não foi tão grande quando comparado ao aumento proporcionado pela polinização prestada pela biodiversidade natural presente nas matas próximas”, afirma. Ele detalha ainda que, para poucos casos de polinização, o manejo de uma única espécie atende plenamente, mas para a grande maioria das plantas a diversidade de polinizadores é insubstituível.

O artigo finaliza um trabalho que iniciou em 2016 e envolve projetos que estudam as abelhas e polinização, financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (Abelha).

Em nove áreas foram introduzidas 15 colônias de abelhas canudo dispostas em meliponários móveis com diferentes gradientes florestais no entorno. Outras nove áreas, sem a introdução das caixas, mas com cenários florestais semelhantes, serviram como “testemunha”. Ao longo de cinco meses, que é o período de floração anual do açaizeiro, os pesquisadores avaliaram em um raio de um quilômetro, partindo do meliponário ao longo do plantio, a frequência de visitas de insetos, a abundância nas flores, a formação de frutos e as características do manejo realizado pelos produtores. “A mesma avaliação foi feita nas áreas sem a introdução de colônias, a partir de um ponto central do plantio”, acrescenta Maués.

O grupo contabilizou mais de 17 mil visitas nas inflorescências femininas do açaizeiro no período de cinco meses. Dessas visitas, 62% foram de abelhas. E, entre essas, 29% foram das novas moradoras, as abelhas canudo; 28% de abelhas silvestres naturalmente presentes na área; e 5% de abelhas africanizadas. Outros insetos, como moscas, vespas e besouros correspondem a cerca de 30% das visitas. “Nós identificamos, entre os visitantes, 138 espécies de insetos, entre abelhas, moscas, vespas, besouros, formigas e mariposas”, conta a pesquisadora.

Nas áreas com abelhas manejadas, segundo o estudo, a abelha canudo representou 43% das visitas entre todos os insetos. “Nós superlotamos uma área esperando um retorno positivo na polinização. Mas o que observamos foi que essas abelhas conseguiam monopolizar a visita às flores e, com isso, espantaram as abelhas silvestres”, afirma Maués. Novos experimentos com a introdução de número menor de colônias e com maior diversidade de espécies manejadas podem indicar resultados diferentes, ressalta a pesquisadora.

A cientista destaca ainda que o açaizeiro tem uma relação forte com a diversidade de polinizadores e, quanto mais floresta, mais diversidade. Apesar de também serem polinizadores naturais do açaí, a introdução das colônias de abelha canudo não teve o efeito equivalente à presença da floresta. “Isso não descarta a importância do manejo das abelhas, mas indica que é preciso integrar a atividade ao manejo da paisagem e à floresta”, constata.

Já nas áreas com menos floresta, a abelha canudo tem um efeito positivo na polinização e, consequentemente, na produtividade do açaí, principalmente nas áreas com menos de 30% de cobertura florestal. O Código Florestal Brasileiro  define que propriedades rurais em áreas de florestas na Amazônia Legal devem possuir 80% de Reserva Legal ou, no caso de terem sido desmatadas, devem restaurar pelo menos 50% dessas áreas, sendo assim, a pesquisadora alerta que nas propriedades em desacordo com a legislação “não basta somente introduzir as caixas de abelha; é preciso fundamentalmente realizar a recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APP) e de Reserva Legal. É importante para o produtor e para a produção”, destaca.

 

Mais visitas, menos diversidade – O trabalho apontou que, em um plantio sem o manejo de abelhas e com 40% de cobertura florestal ao redor, o número de visitas (abundância) de abelhas aos açaizeiros aumentou em 100%, em relação a uma área degradada com até 10% de floresta.

Já em um plantio nas mesmas condições com a introdução de abelhas manejadas, o aumento na taxa de visitação às flores teve um acréscimo de 30% no total de visitantes florais (manejados ou não). “No geral, verificamos que houve aumento no total de visitas, pois superlotamos a área com abelhas”, observa Maués.

Porém, ao analisar somente o desempenho dos polinizadores silvestres, aqueles presentes na natureza, a introdução das caixas de abelhas canudo provocou uma redução de até 80% na taxa de visitação das abelhas silvestres às flores e 50% na riqueza de espécies. A média na taxa de visitação ficou em 60%.

“As abelhas canudo provocaram o deslocamento dos insetos que poderiam estar ali visitando as flores do açaí. Elas são muito ativas, territorialistas e eficientes na coleta”, acrescenta a pesquisadora. Ela ressalta ainda que a cobertura florestal teve o efeito mais importante no aumento da taxa de visitação, pois a competição entre as espécies foi menos acentuada nos ambientes com mais floresta. “Nos ambientes com menos floresta em função da escassez de abelhas silvestres e de recursos, a Scaptotrigona dominou o espaço”, completa a cientista.

Para Cristiano Menezes, isso não significa que se vá desistir do manejo das abelhas no caso do açaizeiro. Tem-se que pensar nas múltiplas possibilidades que o produtor tem para que o sistema de polinização seja bem-sucedido, como manejar uma diversidade maior de abelhas nativas, assim como ocorre na natureza, e melhorar a paisagem no entorno nos plantios. “É preciso mudar o olhar sobre a área de mata. Ao invés de ser considerada uma área perdida, ela deve ser vista como um ativo importante que traz renda para o proprietário. A restauração passa a ser um investimento”, pontua o cientista.

Ao invés de pensar o açaí como uma monocultura de larga escala, o produtor deve pensar no desenho da paisagem que favoreça a presença dos polinizadores na área, como corredores de mata entre os plantios. “É importante que o produtor tenha em mente que ele precisa apostar nas áreas de mata. O manejo de polinizadores ajuda, mas dificilmente vai substituir a floresta, pois essas áreas é que vão garantir a provisão do serviço ecossistêmico de polinização”, finaliza Menezes.

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