SOS LEITE – O PEDIDO DE SOCORRO

Com participação do ministro da Agricultura, a grande manifestação de produtores de leite no Prata revela a união da classe frente a um cenário crítico que ameaça toda a cadeia

O pedido de socorro dos produtores de leite ao governo federal sensibilizou o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento Blairo Maggi, além de parlamentares e lideranças do agronegócio, que estiveram presentes no primeiro manifesto nacional “SOS LEITE”, realizado no último dia 16, no município do Prata – principal bacia leiteira do Triângulo Mineiro. Sensibilizado, o ministro promete lutar pela sobrevivência do produtor. “Eu vim aqui para ouvir. Estive com o presidente da república nesta semana e reportei o grau de deterioração em que se encontra o setor de leite no Brasil. Se nada for feito, os prejuízos e os preços que a sociedade brasileira pagará no futuro serão muito grandes”, declara Maggi.

MANIFESTO NACIONAL

O Manifesto SOS Leite, organizado por sindicatos rurais em conjunto com a Federação de Cooperativas Agropecuárias de Leite em Minas Gerais (Fecoagro Leite Minas) teve participação de mais de mil produtores de leite de diversas regiões, além de lideranças políticas do Estado e representantes de entidades ligadas à pecuária leiteira, como cooperativas e associações de criadores de bovinos.

Entre os pleitos apresentados pelos produtores no evento estão pedidos para utilização de produtos lácteos nacionais nas compras governamentais e, sobretudo, desoneração da cadeia. No manifesto apresentado pelo coordenador da Câmara de Leite da OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) Vicente Nogueira, os produtores de leite, sindicatos e cooperativas pedem:

POLÍTICAS PARA O SETOR LEITEIRO

  1. Não às importações desleais e predatórias (formalização de acordo com o Uruguai);
  2. Não às fraudes (aumento da fiscalização na industrialização do leite);
  3. Não à reidratação de leite em pó para fabricação de leite fluido para consumo direto;
  4. Investigar práticas de formação de cartel por parte da indústria de laticínios na formação de preços pagos aos produtores;
  5. Exigir que as indústrias informem com antecedência o preço a ser pago pelo leite (até o penúltimo dia de cada mês, as indústrias deverão informar o preço a ser pago pelo leite entregue no mês subsequente);
  6. Promoção institucional do leite e seus derivados.

“O Ministro teve hoje uma demonstração de quanto os produtores de leite, sindicatos e cooperativas estão mobilizados na defesa da sobrevivência. Estamos preparados para fazer manifestação maior em Brasília, e levaremos milhares de produtores de leite para entregar nosso pleito ao presidente da república”, revela Nogueira.

O VELHO PROBLEMA

A falta de medidas de apoio e defesa da cadeia produtiva do leite, especialmente na elaboração de regras que limitem a quantidade de leite em pó importado do Uruguai, está desorganizando toda a cadeia produtiva nacional de lácteos, o que ameaça a sobrevivência de mais de 5 milhões de trabalhadores – um contingente maior que a própria população do país vizinho.

O exemplo dessa relação desfavorável está na análise da balança comercial do agronegócio entre os dois países. Em 2016, o saldo desse comércio foi favorável ao Uruguai em US$418 milhões, sendo que 36% referem-se aos produtos lácteos. Nesse período, o Brasil foi o destino de 86% do leite em pó desnatado e 72% do leite em pó integral exportado pelo Uruguai. O volume de leite exportado é tamanho que gerou a suspeita de que parte desse leite não seja produzido lá, pois a produção do país seria insuficiente para exportar a quantidade que tem chegado ao Brasil. Essa conjectura fez com que, no último dia 10, o ministro Blairo Maggi suspendesse as licenças de importação de leite do Uruguai.

No entanto, em coletiva de imprensa durante o SOS Leite, Maggi admite que o Brasil pode voltar a comprar leite uruguaio. “Não é uma medida definitiva, até porque se eles recorrerem a qualquer órgão internacional, como a OMC, terão direito de impor a venda de leite ao Brasil”, salienta. Acrescenta também que enviará uma comitiva ao país vizinho para averiguar se há indicações de triangulação.

Ainda segundo o ministro, a solução para a crise no setor também passa pelo aquecimento da economia brasileira. “As pessoas comem e bebem aquilo que desejam, na medida em que tenham recursos para isso. Não é necessário incentivo para as pessoas comerem; é preciso renda. A economia voltou a crescer, e quando os empregos voltarem tenho a certeza de que tudo isso será resolvido, porque dinheiro na mão das pessoas traz alimentação melhor”, afirma.

Ao final do evento, representantes de entidades ligadas ao setor e produtores de leite fecharam a BR-153, com manifestação pacífica e acompanhada pela Polícia Rodoviária Federal. Lá, distribuíram mais de três mil litros de leite aos motoristas.